0# CAPA

SUPER
INTERESSANTE

Edio 346
Maio 2015

A SUPER MUDOU
NOVO DESIGN + NOVO CONTEDO

[descrio da imagem: no centro da capa, uma ma, tendo no cabo uma pequena folha verde. Na frente e meio da ma, um buraco, como se fosse de um tiro. Deste buraco sai um lquido, como sangue e ao redor deste buraco, traos pretos, representando veias.]
AS RAZES DA CORRUPO
Ela existe em qualquer pas do mundo, sob qualquer forma de governo, em qualquer instituio - em qualquer coisa viva, na verdade.  impossvel extermin-la, mas colocar rdeas nela  mais fcil do que parece. 
POR RODRIGO CAVALCANTE E ALEXANDRE VERSIGNASSI

[outros ttulos]

O CO QUE VIROU SANTO
E tambm o santo que virou cachorro, e outras quatro histrias bizarras com animais.
GATA DE SCHRDINGER + ESPRESSO EM CASA - GOD SAVE THE KING + XAVECO DE DINOSSAUROS + LOBOS X NEANDERTAIS + BRILHE NO KARAOK

"MINHA VIDA SEM TESTOSTERONA", UMA HISTRIA EM QUADRINHOS

SEU FUTURO SEGUNDO APPLE, GOOGLE E FACEBOOK

J EXISTE PENA DE MORTE NO BRASIL

ESTAMOS NA MERDA PORQUE NO FALAMOS DA MERDA

UM CONTO DOS DIABOS DE REINALDO MORAES

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1# PRIMEIRA PGINA
2# ESSENCIAL
3# SUPERNOVAS
4# REPORTAGENS
5# ORCULO
6# MUNDO SUPER
7# REALIDADE ALTERNATIVA
8# LTIMA PGINA
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1# PRIMEIRA PGINA maio 2015

DA MESA DO EDITOR  TANTO E TO POUCO
Tanta coisa para te contar, to pouco espao. Vamos logo: 

1- A SUPER mudou inteira, dos ps  cabea. Mudou a organizao, a forma de pensar, a estratgia digital, as sees, as pautas, o processo de trabalho. Mudou porque sabemos que voc gosta de novidade. Mas no mudou por mudar: foi para ficar melhor, mais conectada, mais compartilhvel, mais impactante, mais variada. 
2- Quem conduziu o projeto de mudana foram alguns dos mestres do design contemporneo mundial, que temos a sorte de ter na equipe. Foi massa este ms assistir aos caras trabalhando, trazendo referncia do que tem de mais novo no mundo, criando uma revista diferente de tudo que j foi feito. 
3- Depois de 28 anos, a SUPER abre mo da famosa moldura vermelha na capa. Ou melhor, segundo os designers, a moldura continua l, mas agora est "subentendida". Sacou? 
4- A SUPER passa a publicar fico. Realidade Alternativa ser nosso espao para literatura pop: contos surreais inditos de autores feras. Na estreia, ningum menos que Reinaldo Moraes, infernal. 
5- Outra novidade  que agora teremos perfis de gente incrvel, com quem nos identificamos. Conhece a Gabriela Lemos, mineirinha que deixou os fsicos do mundo atnitos? Pois devia. 
6- Tambm comeamos a abrir espao para gente talentosa contar suas prprias histrias reveladoras. Nesta edio, por exemplo, a jovem Lu Cafaggi desenhou e escreveu uma desconcertante histria em quadrinhos biogrfica sobre suas aventuras hormonais. 
7- Mudou tudo nas nossas sees. No vou ficar explicando. Convido voc a explorar a revista para ver se gosta do ritmo. 
8- E, enquanto mudvamos, tivemos que ficar parando para beber champanhe, porque ganhamos uns dez prmios! Agora mesmo escrevo de boca seca e dor de cabea. Celebramos ontem trs Prmio Abril (melhor infogrfico, melhor projeto de internet, melhor artigo: todos disponveis na internet, se voc quiser ver: goo.gl/HMtsZ5.) 
9- Mas quem bebeu muito champanhe este ms foram a designer Inara Negro, o editor Felipe van Deursen e grande elenco, autores de "Por Trs do Vu", que se tornou o infogrfico mais premiado da histria da SUPER. Ganhou Prmio Abril, o Malofiej da Espanha e os dois principais prmios americanos de design: o SPD e o SND. Fechou o Grand Slam. 
10- Estreamos o novo jeito de pensar a revista com uma matria dupla na capa - duas abordagens surpreendentes sobre o assunto que ningum parece estar compreendendo: corrupo. E tem mais. Agora  o site da SUPER que vai mudar todinho: alm de ficar lindo, est cheio de novidade, inclusive alguns vdeos sensacionais. Estreia ainda este ms.
Denis Russo Burgierman DIRETOR DE REDACO
DENIS.BURGIERMAN@ABRIL.COM.BR
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2# ESSENCIAL maio 2015

     2#2 UMA VIAGEM... [foto]
     2#3 ...MIL PALAVRAS  ESTAMOS NA MERDA PORQUE NOS RECUSAMOS A FALAR DA MERDA


2#2 UMA VIAGEM... [foto]
A Hang Son Dong  a maior caverna do mundo, com 5 km de profundidade, 200 m de altura e 150 m de largura. Localizada no Vietn, ela foi descoberta apenas em 1991. Dentro dela, h rios subterrneos, praias e florestas. Esta  a primeira vez que a caverna foi registrada desta maneira. Tudo graas a um drone, levado at l pelo fotgrafo Ryan Deboodt. 


2#3 ...MIL PALAVRAS  ESTAMOS NA MERDA PORQUE NOS RECUSAMOS A FALAR DA MERDA
Perdoe o linguajar, mas foi por querer. Precisamos perder o medo de falar sobre a merda - ou o Brasil jamais vai sair de dentro dela.
POR DENIS RUSSO BURGIERMAN

     MERDA NO  UM PALAVRO. Na verdade,  uma palavra clssica, do latim, que viajou intacta at ns desde a Roma Antiga. Sempre significou excremento: as sobras de nutrientes que o corpo no consegue processar, diludos em 75% de gua. No tem nada de feio na palavra, ela  praticamente feita de mrmore. Feio  o significado dela. No gostamos de ouvir a palavra "merda" pelo mesmo motivo que no gostamos de sentir o cheiro dela, ou de avistar na calada um encaracolado toroo marrom: a ideia nos causa repulsa. Graas a essa repulsa estamos vivos. Se nossos ancestrais no se incomodassem com coco espalhado pela caverna, as bactrias teriam chacinado todos eles. Mas, agora, esse velho hbito de negar a merda est matando o Brasil. 
     MERDA NO  OFENSA,  uma realidade da vida. O papa Francisco caga, assim como Gisele Bndchen. Lula e FHC cagam. Cago eu e - por favor me perdoe a indiscrio - voc tambm. Certeza. Cada humano d  luz 55 quilos de malcheiroso barro por ano. 
     Por sorte, nascemos num planeta que veio com sistema autolimpante. O nome desse sistema  ciclo da gua. Como se fosse uma gigantesca lava-louas esfrica, nossa atmosfera fica cheia d'gua, que  esguichada para l e para c por jatos de calor. gua gasosa, flutuando pelos cus, gua slida, escorregando de geleiras e, principalmente, gua lquida, rolando em rios e enchendo a imensa piscina ocenica que d cor  Terra. 
     gua  uma tecnologia incrvel. Tem a propriedade de dissolver as coisas:  o tal "solvente universal". Por isso vai carregando tudo enquanto a lava-louas funciona. Graas a ela, os quase 400 milhes de toneladas de coc que a humanidade produz ao ano no ficam empilhados na frente da sua casa. 
     E no falo s de fezes. No so s as pessoas que excretam - as mquinas, as casas, as fbricas, as cidades tambm soltam seus maldigeridos excedentes para a gua levar embora, solvente universal que .  a merda industrial. 
     NS NO BRASIL somos muito limpos e educados. Segundo pesquisa do Euromonitor que a SUPER publicou ms passado, lideramos fcil o ranking mundial de banhos: tomamos impressionantes 12 por semana, mais que o dobro de ingleses, japoneses e franceses. E evitamos falar a palavra "merda" - que grosseria. Mas, enquanto no falamos, tampouco lidamos com ela. 
     Veja o caso de So Paulo, orgulhosa metrpole cosmopolita, que no entanto julgou ser boa ideia erguer seu distrito empresarial s margens de um grande lago de merda. Sim, lago de merda -  o que o Rio Pinheiros . Deixou de ser um rio nos anos 1990, quando parou de correr, para evitar que o coc se espalhasse pelo mundo (nem os moradores da Represa Billings nem as cidades do vale do Tiet queriam lidar com o esgoto que escorria viscoso da megalpole). Hoje um megaprojeto hidrulico mantm a  gua suja quase parada, movendo-a s um tiquinho para c, um tiquinho para l, para reduzir o risco de enchente. 
     So Paulo no  caso isolado. Quase todos os brasileiros, literalmente do Oiapoque ao Chu, estabeleceram uma relao doentia com as guas de sua cidade. As matas que cercam as margens so arrancadas, o fundo se enche de areia, resduos industriais so despejados. Paramos de nadar nos rios, negando a ns mesmos um dos maiores prazeres que a evoluo nos legou, e paramos de naveg-los, atravancando a economia. Pntanos e manguezais, os sistemas naturais de limpar gua, so destrudos. Em seguida vem o esgoto, muito esgoto - inclusive provavelmente o seu (j que s um tero  tratado no Brasil). A, como no gostamos de ver merda, a cidade vira as costas para seus rios - e tentamos parar de pensar neles. 
     Isso  grave. Ainda mais se lembrarmos que o Brasil depende de gua. Quer dizer, todo mundo depende, mas o Brasil mais que os outros. Somos a maior potncia global em termos de gua doce - uma a cada oito gotas do mundo pinga aqui. Por causa disso, o Brasil vive de gua. A Unesco estima que exportamos todos os anos 112 trilhes de litros de gua doce para o exterior - gua que escoa para fora do Pas embutida na carne, na soja, no alumnio, no caf. So 3,5 milhes de litros d'gua exportados a cada segundo - para comparar: a populao do Brasil consome 2,4 milhes de litros por segundo. 
     Enfim, para resumir: nosso sistema autolimpante est entupido de coc e vazando a cntaros. O resultado  fcil de perceber: o Brasil est imundo.  uma mquina emperrada, que fica pingando uma nojenta gua marrom. No  de se estranhar que as coisas aqui estejam cheirando to mal.  
     O BRASIL EST NA MERDA, como sabemos. A economia parou, o emprego evapora, a infraestrutura esfarela, as cidades travaram, o custo de tudo alto demais, a crise hdrica ameaando todos. A poltica virou luta de vale-tudo, com grupos rivais que no concordam em nada chafurdando na corrupo financiada pelas construtoras. Uma "crise de tudo" vai nos devorando. 
     Pois talvez haja resposta para cada um desses problemas onde menos se espera: na merda. Se o Pas se engajasse de verdade num imenso projeto coletivo de limpar a merda da gua, veramos os efeitos em todos os lados.  simples: basta usar o nutriente, tirar a merda industrial e deixar a gua fluir limpa, movendo tudo. Teramos que reflorestar as margens, refazer pntanos e manguezais, em todos os leitos de todos os rios de todas as cidades. 
     Com isso, nossa lava-louas funcionaria, o que aqueceria a economia e refrescaria o clima. Nosso n logstico desataria e as cidades destravariam, com rios fazendo o trabalho de estradas e avenidas de maneira muito mais rpida, barata e segura. A terra valorizaria, enriquecendo todos. Teramos mais para beber e mais para exportar. As crianas teriam onde nadar. Seria o tipo de projeto capaz de dar agenda comum para correntes polticas rivais, ocupao a milhares de brasileiros e uma obra til para as construtoras realizarem em troca do dinheiro que j tomam de ns. 
     Mas, primeiro, precisamos ter coragem de falar sobre merda. E a palavra  essa mesma. No  coc - termo infantil, indigno das possibilidades escondidas nele. No  fezes - palavra tcnica, que soa como se nada tivesse a ver conosco. A merda  de cada um de ns. Chegou a hora de arregaar as mangas e meter as mos nela.
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3# SUPERNOVAS maio 2015
Coisas e fatos quentinhos

     3#1 FATOS 
     - O Reddit vai salvar voc
     - Engenheiras, avante
     - O Pavossauro
     - Voc paga este poltico para
     - Despedida
     - Cachorros ajudaram a derrotar neandertais
     - Enquanto isso
     - Um implante para remendar a coluna
     - O fim da dengue vem a
     - ndice SUPER - maconha
     
     3#2 COISAS
     - A realidade virtual na prtica
     - O PC de bolso do Google
     - Smartcar por R$ 1000
     - Pono da discrdia
     - Prolas do streaming
     - Nunca se viu tanto porn. E isso  s o comeo
     - Clube da luta est de volta
     - Ele  teu filho. Acabou, acabou, acabou
     - O lado oculto de Buenos aires
     - 1,2 milho de reais
     - A histria do mundo para quem tem pressa
     - Voc decide
     - Mquinas de caf expresso

3#1 FATOS
Edio KARIN HUECK

O REDDIT VAI SALVAR VOC
EXISTEM CERCA DE 5 MILHES de espcies de fungo, das quais conhecemos apenas 5%. No nosso atual ritmo de descoberta, demoraramos quase quatro milnios para classificar todos os fungos do planeta  o que  um baita perigo: boa parte deles poderia virar remdio, como a penicilina. Pensando nisso, a Universidade de Oklahoma pediu para que americanos enviassem um punhado da terra de suas casas para anlise. Como cada pedao de solo carrega at 12 fungos diferentes, que variam de acordo com a regio, a ideia era montar um imenso banco de bolor. O projeto colaborativo ficou perdido na internet at que um usurio do Reddit o encontrou e o postou na rede social. O tpico bombou e agora a universidade recebe 800 amostras por dia.


ENGENHEIRAS, AVANTE
Um concurso vai selecionar cinco propostas de novos seriados de TV que sero levados a importantes produtores de Hollywood. A nica exigncia  que o protagonista seja uma engenheira. A iniciativa, que foi chamada de "A busca pela prxima MacGyver", quer estimular jovens a estudar cincias - principalmente mulheres, que no costumam receber incentivos para estudar exatas. Os vencedores vo ganhar US$ 5 mil - e a chance de criar personagens fora do padro.
The next HacGyver
Inscries at 27 de abril: thenextmacgyver.com

Cad as cientistas?
Nos EUA: 26% dos cientistas e engenheiros so mulheres. 
22% dos doutorados em engenharia por l so concedidos a elas.
12% dos protagonistas dos maiores blockbusters de Hollywood em 2014 foram mulheres.


O PAVOSSAURO
No  novidade que, a cada nova descoberta da paleontologia, os dinossauros estejam mais parecidos com aves. O que no se sabia at agora  que algumas espcies de dinos tinham hbitos iguais aos do mais fabuloso dos pssaros: o pavo.  o que conclui um novo estudo. Analisando um casal da espcie de ovirraptossauros Khaan mckennai, que foi fossilizado junto, cientistas repararam que a nica diferena entre os dois amantes eram os ossos da cauda. Um deles tinha alguns ossos mais compridos e com salincias, enquanto que os do outro eram regulares. A variao do primeiro podia indicar que o rabo sustentava uma musculatura maior, que podia ser projetada para cima. Ou seja, que esse Khaan provavelmente erguia o rabo e o sacudia, como fazem os machos de pavo para atrair suas fmeas. Arrasou.


VOC PAGA ESTE POLTICO PARA
Por Rodolfo Vian
Projetos de lei que foram apresentados no plenrio no ltimo ms: 
* Alberto Fraga, deputado federal pelo DEM-DF, para que ele defenda que, quando um policial mata algum, o ato seja sempre considerado legtima defesa.  
* Dcio Lima, deputado federal pelo PT-SC, para que ele proba funcionrios do Ministrio Pblico e juzes de postarem coisas na internet. 
* Joo Rodrigues, deputado federal pelo PSD-SC, para que seja liberado o porte de armas a caminhoneiros e taxistas.


DESPEDIDA
De uma pessoa e de uma espcie
Por Karin Hueck

Sunita Tomar
Pas: ndia
Idade: 28 anos
Sunita estrelou uma das mais importantes campanhas contra o cigarro na ndia. Ela aparecia na TV dizendo que mascar tabaco havia lhe dado cncer de boca. Ainda assim, o projeto de lei que pedia avisos de sade nas embalagens de cigarro foi derrubado. Ela morreu do tumor. 

Periquito andino
Pyrrhua subandina
Este colorido periquito colombiano, de cara marrom, testa azul, peito cinza, barriga azul e rabo vermelho entrou em extino. Visto pela ltima vez na natureza em 1949, ele no foi mais encontrado apesar de constantes misses biolgicas nos ltimos anos para ach-lo.


CACHORROS AJUDARAM A DERROTAR NEANDERTAIS
Quando seres humanos e cachorros primitivos se uniram na ltima Era Glacial, eles criaram um predador invencvel - e no sobrou neandertal para contar a histria.
Texto Rafael Gonzaga

UMA NOVA TEORIA tenta responder a um dos mais misteriosos acontecimentos da evoluo humana: por que fomos ns, os Homo sapiens, que dominamos a Terra, e no os neandertais? Apesar de nossos colegas neandertais serem mais fortes e talvez mais espertos, h 45 mil anos, quando os primeiros humanos chegaram  Europa vindos da frica, foram eles que levaram a melhor. Em pouco tempo, os neandertais estavam extintos. Agora, a antroploga Pat Shipman, professora da Pennsylvania State University, acredita ter a resposta para o enigma - e est naquele seu amigo que fica pedindo comida debaixo da mesa. Shipman defende que houve uma aliana entre os homens e os primeiros ces domesticados (que na prtica no se diferenciavam muito dos lobos) no momento em que os neandertais comearam a desaparecer. A parceria entre os dois predadores teria garantido uma taxa de sucesso sem precedentes na caa  de mamferos da Era Glacial. Os ces no s ajudavam na perseguio como protegiam a presa abatida de outros carnvoros. Em um perodo de mudanas climticas radicais, esse trabalho em equipe teria aberto uma vantagem decisiva sobre os neandertais. "Muitos fatores contriburam para a extino do neandertal. Um dos principais foi o aumento da competio na caa por causa dos humanos modernos. Isso tornou muito difcil a vida para eles", diz Shipman. A antroploga no sabe por que a aliana aconteceu apenas com os sapiens, mas acredita que os neandertais talvez no tivessem capacidade cognitiva para entender os candeos, alm de no se adaptarem to bem a novos estilos de caa. Qualquer que tenha sido o motivo, o resultado foi timo para ns. "Trabalhar com esses ces primitivos pode ter melhorado nossa capacidade de criar emparia e de compreender melhor pensamentos e intenes", diz Shipman. 


ENQUANTO ISSO
Por Karin Hueck
Enquanto o Brasil parou para debater um inofensivo beijo gay na novela das 9...
Ganhou alta o ltimo paciente infectado com ebola na Libria, uma professora de 58 anos.
A Franca baniu a contratao de modelos ultramagras (com IMC menor de 18) para desfiles de moda e fotos publicitrias.
A Unicef declarou que 2,3 bilhes de pessoas ganharam acesso  gua potvel desde 1990.
Cientistas anunciaram que o outono e o inverno esto perdendo 30 segundos de durao a cada ano. J a primavera e o vero esto crescendo. Culpa da oscilao do eixo da Terra.


UM IMPLANTE PARA REMENDAR A COLUNA
Um implante que conseguiu fazer com que ratinhos paralisados voltassem a andar - e a ideia  que no futuro a novidade possa ser aplicada em humanos. Conhea o e-Dura. 
Texto Rafael Gonzaga

1-  implante estimula a medula espinhal e reanima as clulas nervosas bem ao lado do tecido lesionado.
2- Ele  preso abaixo da dura-mter (a mais externa das trs membranas que envolvem o crebro e a medula).
3- Os implantes anteriores eram rejeitados pelo corpo. O e-Dura, no:  flexvel e elstico como nossos tecidos.
O mtodo proposto ainda precisa ser validado em pessoas e isso pode levar muitos anos", diz Stphanie Lacour, cientista do projeto.


O FIM DA DENGUE VEM A
Depois de mais de 230 mil casos da doena registrados este ano, o Instituto Butantan est tentando acelerar a liberao da vacina contra a dengue. Desenvolvida com o vrus geneticamente atenuado, ela protege contra os quatro tipos da dengue e j foi testada em 150 voluntrios sem reao adversa grave. A ideia  antecipar as ltimas fases de teste (as que medem a resposta imunolgica do corpo e a eficcia do remdio) para que a vacina entre no mercado em 2016 - o processo tradicional demoraria cinco anos. Se o Butantan for bem-sucedido, a nossa ser a primeira do mundo. A farmacutica francesa Sanofi tambm tem uma verso, que j est quase pronta, mas que ainda precisa passar pelas agncias reguladoras dos pases. RG


NDICE SUPER  MACONHA
Preo do grama ao redor do mundo
R$ 106 Dublin  Irlanda
R$ 3 So Paulo  Brasil
R$ 42 Denver (a maconha  legal) EUA
R$ 2,50 Kuala Lumur  Malsia (trfico d pena de morte)
R$ 0,06 Antananarivo  Madagascar
R$ 3 (o tipo mais fraco da maconha legal) Montevidu  Uruguai
R$ 237 Tquio - Japo

"Acho que o diabo est punindo o Mxico com grande fria. Essa  a minha interpretao, papa Francisco, sobre a violncia do narcotrfico no segundo maior pas catlico do mundo. O Mxico ficou chateado com o papa.


3#2 COISAS
Edio BRUNO GARATTONI

A REALIDADE VIRTUAL NA PRTICA
Ela no  mais uma promessa. Finalmente chegou ao mercado, na forma de um produto concreto: o capacete Samsung Gear VR. Como todo pioneiro, no  perfeito. Mas  bem interessante. 
Reportagem Fernando Bad

ELE CUSTA US$ 200 e requer um celular Galaxy Note 4 ou Galaxy S6 - que vai encaixado na frente do capacete e gera as imagens que voc v. Tem cerca de 20 apps: vdeos, jogos (que voc controla com a cabea ou com um joystick) e demos simples. Mas a Samsung promete cinco novos downloads por semana, como jogos da NBA, que voc v como se estivesse na arquibancada (ao mover a cabea, o seu ponto de vista muda). Tambm h contedo do tipo na loja Google Play - como um show de Paul McCartney em RV. A realidade virtual mal nasceu. Mas nasceu bem.
Os culos produzem imagens 3D imersivas, que preenchem a maior parte do seu
campo de viso.


O PC DE BOLSO DO GOOGLE
Ele se chama Chromebit, e parece um pendrive - mas  um computador de US$ 100. Basta plug-lo num monitor (na entrada HDMI), conectar teclado e mouse (que podem ser USB ou Bluetooth), e pronto. Voc j pode navegar, editar textos e planilhas, ouvir msica, ver vdeos e filmes. Tudo online - pois o Chromebit roda o sistema operacional Chrome OS, que foi criado pelo Google e depende da internet para funcionar. No pega vrus, no fica lento, no d problema.  a anttese do Windows. E maior ameaa, em dcadas,  sua hegemonia.


SMARTCAR POR R$1000
A Apple e o Google querem revolucionar os carros (leia mais na pgina 40). Isso ainda vai demorar. Mas, por US$ 300, voc pode ter um pouco do que esto preparando - no carro que voc j tem. Basta instalar o acessrio Navdy, que projeta informaes no para-brisa. Voc pode consultar o GPS, ler mensagens de texto, atender uma ligao ou mudar a msica que est ouvindo. Tudo sem tirar os olhos da rua, nem apertar botes: o sistema entende gestos e comandos de voz. Ele tem os prprios apps, mas tambm  compatvel com alguns do seu celular (iOS ou Android). E serve em qualquer carro.


Pono da discrdia
Quando uma msica  gravada em mp3, at 90% da informao sonora  descartada. E isso deixa o som ruim. Metlico, magro, micho.  o que dizem os adoradores do vinil. E o roqueiro Neil Young, que criou o Pono: um tocador de US$ 400 que roda msicas gravadas no formato FLAC, de alta definio (US$ 2 cada uma). Est dando o que falar - porque um teste cego, nos EUA, revelou que as pessoas no conseguem diferenciar o som do Pono de um celular com mp3. Young respondeu dizendo que testou "com cem msicos, e todos ouviram a diferena". 


PROLAS DO STREAMING
As coisas mais legais dos principais sites

NETFLIX
Looper
Filme
Uma fico cientfica cabea, com atuaes legais e roteiro hiperinteligente. No, no  Interestelar.  um filme melhor ainda. Escrito e dirigido pelo americano Rian Johnson (que dirigiu trs episdios de Breaking Bad e agora est trabalhando em Star Wars: Episdio 8).

GLOBOSAT PLAY
(play.com.br)
Mdicos
Srie.
Voc j deve ter visto trocentos filmes e sries sobre a rotina de um hospital. Todas gringas. Esta  diferente: acompanha o trabalho real de seis mdicos do Albert Einstein, em So Paulo. Os pacientes so crianas, velhos, adultos, gente parecida com voc. Em situaes de arrepiar. 

YOUTUBE
Japo nosso de cada dia
Canal
Restaurantes robticos, privadas automticas, sushi lquido para fazer em casa. As bugigangas, as esquisitices, os passeios, os costumes, o verdadeiro dia a dia da vida no Japo segundo Tales e Priscila - dois descendentes de japoneses que foram para l trabalhar, se conheceram, casaram e ficaram.

SPOTIFY
The Dark Side of Classical Music 
lbum 
Sabe quando voc tem vontade de matar algum precisa se isolar um pouquinho porque t estressado? Combata fogo com fogo. No caso, este disco: que junta Beethoven, Mozart, Stravinsky, Bach e outros gigantes, todos em seus momentos mais dramticos, violentos e sinistros.  incrivelmente relaxante. 

NUNCA SE VIU TANTO PORN. E ISSO  S O COMEO
PASSAMOS A MAIOR PARTE DO NOSSO TEMPO NA INTERNET - em mdia 9h por dia, segundo pesquisa recente. E a maior parte da internet, ou pelo menos uma grande parte,  contedo ertico. Junte uma coisa com outra, e o resultado  bvio: a humanidade nunca consumiu tanto porn. E isso gera uma reao em cadeia. O marido v vdeos escondido da mulher; e a mulher usa um app para descolar um amante. A me xereta o computador da filha; a filha parte para o WhatsApp, onde o pior acontece. Um filme muito bom, escrito e dirigido por Jason Reitman (do timo Juno), mas que pouca gente viu no cinema - por vergonha, talvez. Agora d pra ver em casa. Como aquela outra coisa. 
Homens, Mulheres e Filhos
Disponvel nas lojas iTunes, Google Ply, Net Now e em Blu-ray. A partir de R$ 6,90


CLUBE DA LUTA EST DE VOLTA
De um jeito diferente. Chuck Palahniuk, autor do livro que virou filme (o clssico com Brad Pitt, de 1999), resolveu continuar em outro formato: quadrinhos. A histria se passa dez anos depois, mas tem os mesmos personagens: o protagonista sem nome e o doido Tyler Durden - que volta para bagunar tudo.
Fight Club 2
darkhorse.com
(em ingls). US$ 4


"ELE  TEU FILHO. ACABOU, ACABOU, ACABOU", 
gritou, eufrico, o policial ao achar o garoto Pedrinho: que havia sido roubado, 16 anos antes, numa maternidade em Braslia. Um livro-reportagem eletrizante, sobre um crime incrvel. Escrito pelo reprter Renato Alves (vencedor do Prmio Esso de Jornalismo). 
O Caso Pedrinho R$ 39,90 


O LADO OCULTO DE BUENOS AIRES
Ela foi inundada pelos turistas brasileiros. Mas, como um novo livro revela, ainda tem seus mistrios.
1- O jornaleiro do papa - Daniel comanda a banca da Hiplito Yrigoyen, 478 - frequentada, durante anos, pelo papa Francisco (que gostava de levar o La Nacion enrolado com elstico, e tinha o hbito de devolver os jornais depois de ler). 
2- Farsa do doce de leite - Ao contrrio do que dizem, no  inveno argentina. Mas aqui, no La Salamandra (Rua El Salvador, 4761), se come o melhor da cidade. 
3- Strawberry Fields ac - Uma lajota de Strawberry Fields, orfanato ingls que inspirou John Lennon,  a jia do Museu Beatle (Av. Corrientes, 1660). 
4- Maonaria portenha - O Obelisco, na Avenida Corrientes,  o principal monumento da cidade. E, segundo vrios indcios, tambm um smbolo manico. 
5- Star Trek judaico - Na sinagoga do Museu Judeu (Templo Libertad), h um smbolo idntico  saudao vulcana, do personagem Spock. 
Guia Secreto de Buenos Aires. R$ 39.


1,2 MILHO DE REAIS
 quanto custa Dying Light Apocalypse, game de zumbis para Xbox e PS4  e jogo mais caro de todos os tempos.  que, alm do jogo em si, o kit inclui coisas inslitas:
- Bunker reforado contra zumbis  (construdo onde voc quiser).
- culos de viso noturna (para enxergar os zumbis se aproximando).
- Aulas de parkour (para fugir dos zumbis escalando paredes.


A HISTRIA DO MUNDO PARA QUEM TEM PRESSA
R$ 29,90
Voc fez exatas no colgio (como eu) e teve poucas aulas de histria? Ou teve um monte, mas esqueceu? Neste livro, a historiadora Emma Marriot tenta recapitular toda a histria humana - em apenas 200 pginas.  superficial, claro, mas  bem gostoso de ler. E mais rpido at do que olhar na Wikipedia.


VOC DECIDE
Os projetos mais interessantes (e curiosos) do mundo do crowdfunding

Salvao da cerveja 
Site Kickstarter 
Projeto: Hop Theory 
O que : um sach que contm lpulo, casca de laranja e coentro. Voc o coloca dentro do copo de cerveja gelada, espera trs minutos, e a sua breja aguada de churrasco vira cerveja gourmet. Pelo menos essa  a promessa. 
Meta RS 75 mil 
Chance de conseguir 3 em 5

O caderno infinito 
Site Indiegogo 
Projeto: Rocketbook 
O que : um caderno que pode ser usado inmeras vezes. O segredo est no papel e na caneta, que usa tinta sensvel ao calor.  s colocar o caderno por 30 segundos no micro-ondas para apagar as pginas. 
Meta RS 60 mil 
Chance de conseguir 5 em 5

Viva o dread, man 
Site Indiegogo 
Projeto: Dreads 
O que : o ingls Elijah, de 31 anos, usa dreadlocks desde os 19. Agora, quer levantar dinheiro para visitar seis pases e fazer um documentrio sobre as origens e o uso dos dreads como "uma marca da religio rastafri, uma atitude de moda ou o resultado da falta de limpeza". Ou tudo isso junto. Com a graa de Jah, man. Meta R$ 230 mil 
Chance de conseguir 2 em 5


MQUINAS DE CAF EXPRESSO
Virou moda ter uma em casa ou no escritrio. Mas qual a melhor? Testamos quatro. Avaliamos funcionamento, qualidade do caf (julgada em teste cego pelo consultor Ensei Neto, do Specialty Coffee Bureau, que provou os cafs de mdia intensidade de cada mquina e atribuiu nota de 0 a 20 a cada um) e gasto mensal - supondo o consumo de trs cafs por dia.

OSTER PRIMA LATTE
No tem caf prprio: aceita saches ou p comum, de qualquer marca. E 1 kg rende cem expressos - ou seja, sai muito mais barato. Tambm faz cappuccino. Melhor opo, tanto para o diletante que quer um expresso barato quanto para o nerd de caf. Deve ser instalada perto de uma pia, pois faz alguma sujeira.
1- Qualidade do caf: Sem nota. No possui caf prprio
2- Variedade de bebidas: Infinita. Aceita qualquer caf
3- Gasto mensal: R$ 9 a R$ 81. Dependendo do p usado
4- Nvel de rudo: 70 DB (esquentando leite, 90 DB)
R$ 749 (preo sugerido pelo fabricante)
osterbrasil.com

NESCAF DOLCE GUSTO MINI ME
No tem reservatrio de cpsulas usadas. Isso significa que, depois de fazer um caf,  voc tem de tirar a cpsula e jogar no lixo antes de preparar outro (e  cansativo preparar o caf com leite, que requer duas cpsulas). Design simples divide opinies. De longe a mquina mais robusta, boa para uso intenso.
1- Qualidade do caf: 10 a 12 pts. (caf utilizado: Espresso)
2- Variedade de bebidas: 20 opes de caf, ch e bebidas quentes
3- Gasto mensal: R$ 135
4- Nvel de rudo: 73 DB
R$ 479,90 (preo sugerido pelo fabricante)
nescafe-dolcegusto.com.br

NESPRESSO INISSIA
Tem a maior - e mais cara - linha de cafs prprios (e tambm aceita cpsulas de fabricantes alternativos). No faz ch nem outras bebidas, e cappuccino s com um acessrio (R$ 195). Bonita. Como na Trs, o mecanismo  meio delicado - pode engripar se for forado ou a cpsula inserida incorretamente..
1- Qualidade do caf: 14 a 15 pts. (caf utilizado: Capriccio) 8 a 10 pts (caf utilizado: Livanto)
2- Variedade de bebidas: 24 opes de caf, incluindo e descafeinados
3- Gasto mensal: R$ 157,50
4- Nvel de rudo: 85 DB
R$ 399 (preo sugerido pelo fabricante)
nespresso.com.br

TRS MODO
Produzida pela mineira Trs Coraes com tecnologia da italiana Caffitalia. Uso poderia ser mais simples ( preciso olhar um desenho pequeno, na cpsula, para saber qual dos trs botes apertar). Bonita.  um bom produto, mas o caf poderia ser mais barato - custa quase o mesmo que o Nespresso.
1- Qualidade do caf: 10 a 11 pts. (caf utilizado: Expresso Pleno)
2- Variedade de bebidas: 16 opes de caf, ch e bebidas quentes
3- Gasto mensal: R$ 144
4- Nvel de rudo: 80 DB
R$ 479 (preo sugerido pelo fabricante)
escolhatres.com.br

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NVEIS DE RUDO
Medidos em decibis (dB). A escala  logartmica, ou seja: cada 3dB a mais significam o dobro de rudo.
Motoserra 120 DB
Furadeira 100 DB
Aspirador de p 70 DB
Biblioteca 40 DB
Sala silenciosa 40 DB
Respirao 10 DB
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HACK
COMO GASTAR MENOS COM CPSULAS
1- Compre uma cpsula recarregvel. A mais fcil de encontrar no comrcio  da marca Emohome. Ela custa R$ 15, e existe em verses compatveis com as mquinas Nespresso e Dolce Custo.
2- Abra a cpsula e coloque o seu prprio caf dentro. Feche e use normalmente.
3- Depois  s esvaziar e lavar a cpsula para reutiliz-la. A cpsula pode ser recarregada at 30 vezes.
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4# REPORTAGENS maio 2015

     4#1 AS RAZES DA CORRUPO E COMO COMBAT-LA
     4#2 BICHOS CORRUPTOS
     4#3 TECNOLOGIA  O FUTURO SEGUNDO...
     4#4 PERFIL  A GATA DE SCHRDINGER
     4#5 HISTRIA  O CO QUE VIROU SANTO E MAIS 5 CASOS HISTRICOS ANIMAIS
     4#6 VIOLNCIA  J EXISTE PENA DE MORTE NO BRASIL
     4#7 SUPER APRESENTA MINHA VIDA SEM TESTOSTERONA

4#1 AS RAZES DA CORRUPO E COMO COMBAT-LA
Ela existe em qualquer pas, sob qualquer forma de governo, em qualquer instituio.  impossvel extermin-la, mas colocar rdeas nela  mais fcil do que parece. Saiba como. 
Reportagem Rodrigo Cavalcante
Edio Alexandre Versignassi

     VAMOS TENTAR MANTER essa conversa a mais franca possvel. Nada de floreios, brados moralistas ou frases de efeito de WhatsApp no estilo "Por mais tica na poltica", "Por um Brasil melhor para os nossos filhos", "Vamos acabar com a corrupo". Tampouco vale sacar velhos chaves para naturalizar a corrupo no Pas, do tipo "O brasileiro  corrupto por natureza", "A corrupo  um trao do Brasil desde o descobrimento". 
     Corrupo faz, sim, parte da nossa histria. Como faz parte tambm da histria dos Estados Unidos, do Japo, da Sucia e de Cingapura - que, nas ltimas cinco dcadas, deixou de ser apontada como um dos pases mais corruptos do mundo para se tornar um dos menos. 
     Da Grcia Antiga, quando o termo surgiu ligado  ideia de putrefao do corpo poltico, at hoje, referente ao uso de cargos pblicos para ganhos privados, a corrupo faz parte da histria de todos os pases. O que muda, em cada caso,  a maturidade com que cada povo lida com o problema. 
     Nesse quesito, convenhamos: a reao de boa parte dos brasileiros parece a de um adolescente bipolar. De um lado, indignao crescente diante de revelaes dirias de bilhes de reais em recursos pblicos desviados para favorecer empresas e partidos polticos. Do outro, certo cinismo, descrena e at uma convivncia pacfica - muitas vezes complacente - com indivduos e empresas que se beneficiam desses acordos. "O controle da corrupo no pode ser travado nem com moralismo nem com cinismo", diz o historiador da Unicamp Leandro Karnal. "Braslia no  um mundo paralelo colonizado por extraterrestres,  um espelho da nossa sociedade." 
     Ou seja, para combater a corrupo, o primeiro passo  ter maturidade para deixar de v-la apenas como algo distante, sempre relacionado ao outro. Mesmo assim fica a pergunta: ser que a corrupo  uma marca da nossa formao? Vejamos.
     AINDA NO SCULO 19, numa cidade do Nordeste, o prdio do tribunal demorou 20 anos para ser inaugurado. O superfaturamento foi to grosseiro que um carpinteiro chegou a receber o equivalente a US$ 5 milhes em dinheiro de hoje por 30 dias de servio. Outro trabalhador, responsvel pela argamassa, recebeu atuais US$ 2 milhes por dois dias de servio. Quando finalmente foi inaugurado, em 1881, o Tribunal do Condado de Nova York, no nordeste dos Estados Unidos, terminou custando o dobro do valor que o pas pagara na compra do Alaska.  poca, os desvios foram comandados por um dos mais corruptos e populares polticos da cidade, William M. Tweed, ou "chefe Tweed" - no filme Gangues de Nova York, de Scorsese,  ele quem d guarida ao aougueiro criminoso interpretado por Daniel Day-Lewis. 
     Das gangues de Tweed, no sculo 19,  renncia de Richard Nixon, no sculo 20, os Estados Unidos sabem que a corrupo est sempre  espreita do poder - que o diga Francis Underwood, o inescrupuloso poltico de House of Cards, a srie do Netflix. Nem por isso boa parte dos cidados de l vive repetindo, como se ouve no Brasil, que a corrupo  uma espcie de marca gentica do pas desde a colonizao. "Culpar a herana da burocracia colonial pelos casos de corrupo atual no Brasil  apenas uma forma de jogar para o passado os pecados do presente", diz o historiador americano Stuart Schwartz, professor de Yale e autor de Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial. Como ficariam, ento, as teses clssicas do Estado patrimonialista brasileiro (modelo em que o pblico e o privado se confundem), difundidas em obras como Os Donos do Poder, do jurista Raymundo Faoro, para quem o Estado e a sociedade no Brasil evoluram separadamente? 
     "A ideia de Faoro de que o governo era sempre algo separado da sociedade brasileira encobre o fato de que o Estado representava, sim, interesses da sociedade, ainda que no de todos os grupos", diz Schwartz. Para outros pesquisadores, interpretaes simplistas dessa tese tornaram-se, com o tempo, muletas anacrnicas para no nos responsabilizarmos por nossas escolhas. "Basta olhar para o Congresso para constatar que Braslia reflete muito bem, sim, a nossa sociedade", diz Leandro Karnal. "Esto l evanglicos, empresrios, sindicalistas, enfim, de Jean Wyllys a Bolsonaro, de Ronaldo Caiado a Luciana Genro, h tipos ideais de todos os segmentos da sociedade." Para Karnal, a ideia de que, de um lado, existe um Brasil corrupto, de gente atrasada, "da qual eu no fao parte",  apenas um pretexto da sociedade de expiar seus demnios para longe, negando que a corrupo faz parte de uma rede ampla - e bem mais prxima do que se imagina. 
     Na mesma Avenida Paulista, em que milhares de pessoas protestaram contra a corrupo, esto localizados escritrios de empresas envolvidas na Lava Jato, incluindo as acusadas de formar um cartel que combinavam entre si a apresentao de propostas  superfaturadas  Petrobras - por meio de propinas ou doaes de campanha ao PT e aliados. Juntas, Odebrecht, OAS, Camargo Corra, Andrade Gutierrez, Promom, Mendes Jnior, UTC Engenharia, Queiroz Galvo, GDK, Skanska, Techint, Setal, Grupo MPE, IESA, Grupo Engevix e Galvo Engenharia tm uma folha de funcionrios de quase um milho de pessoas. Rotular de corrupto os milhares de trabalhadores dessas empresas seria um erro semelhante ao de tachar todos os funcionrios pblicos de Braslia com o mesmo selo. Por outro lado, isso tambm deixa claro o quanto a corrupo est prxima da gente. Pense na rede de familiares e amigos desse milho de pessoas e j temos uma parcela considervel da populao brasileira. E isso tomando um nico caso de corrupo, ainda que mastodntico. 
     De qualquer forma, vale tambm outro raciocnio aqui: se a participao dessas empresas pode ser justificada como mais um indcio da nossa "herana patrimonialista", o que dizer, ento, de multinacionais como a alem Siemens, a japonesa Mitsui, a canadense Bombardier, a francesa Alstom, a espanhola CAF, entre outras envolvidas no cartel para as obras da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPMT), em So Paulo? "De fato, a corrupo no  'privilgio' do brasileiro e muito menos est em seu 'DNA'", diz Bruno Brando, consultor no Brasil da Transparncia Internacional, maior organizao global de combate  corrupo, com sede em Berlim. "Na verdade, ela aparece sempre que se produzem condies para sua ocorrncia, mesmo nos pases mais desenvolvidos." 
     Bruno lembra que, at poucos anos atrs, a Alemanha e a Frana chegavam a conceder incentivos fiscais para a prtica de suborno internacional a suas multinacionais. As empresas podiam deduzir do imposto de renda os chamados "gastos de facilitao", suborno pago a autoridades em pases onde tinham ou pretendiam ter negcios. "Aps muita presso da Transparncia Internacional e de outras entidades, a Unio Europeia estabeleceu uma regulao eliminando a prtica que, combinada a outras medidas coercitivas, teve um grande impacto na reduo desse tipo de corrupo", diz o consultor. Mas como medir, de fato, se a corrupo de um pas aumentou ou diminuiu? 
     O BANCO MUNDIAL estima que, s em subornos, so gastos mais de um US$ 1 trilho anuais no mundo - quase metade do nosso PIB. Mesmo assim,  impossvel saber com preciso o real fluxo de recursos que vai para corrupo. A Transparncia Internacional, ento, criou o chamado ndice de Percepo da Corrupo. Ele  feito anualmente com base em pesquisas de organizaes, como o prprio Banco Mundial, e entrevistas com diversos grupos (jornalistas internacionais, acadmicos, diplomatas), para avaliar o grau de percepo da corrupo de um dado pas. Com base nessas informaes, os pases so pontuados de zero (totalmente corrupto) a 100 (completamente limpo). Claro que esses extremos so s uma referncia. No ranking para valer, Somlia e Coreia do Norte dividem a 174 (e ltima) posio, com 8 pontos. E a Dinamarca lidera, com 92. Como o Brasil aparece ali? Com medocres 43 pontos, na 69 posio ao lado de Suazilndia, Bulgria, Grcia... Quando se olha apenas para a Amrica do Sul, no entanto, nossa situao relativa parece menos vergonhosa. Ficamos em terceiro,  frente de oito pases - graas ao mau desempenho de naes como Colmbia (com 37 pontos), Argentina (com 34 pontos) e Venezuela (19 pontos). 
     Ainda que seja possvel detectar uma clara correlao entre pobreza e corrupo no ndice, ela no  absoluta: a Itlia divide a 69 colocao com o Brasil, enquanto Uruguai e Chile (73 pontos) superam ustria (72), Frana (69) e Coreia do Sul (55). Mas talvez o dado mais curioso do ndice seja outro: a constatao de que ideologia ou presena do Estado na economia no parece ter nenhuma relao direta com a corrupo. O ndice mostra uma boa pontuao tanto para beros do liberalismo, como o Reino Unido (78), quanto para todos os pases da Escandinvia, conhecidos pela forte presena do Estado e alta carga tributria. "Com amplo setor pblico e governo intervencionista, a Sucia possui todas as caractersticas que, segundo a teoria econmica convencional, deveriam t-la transformado em uma sociedade corrupta", diz Cludia Varejo, jornalista brasileira radicada na Sucia e autora do livro Um Pas Sem Excelncias e Mordomias. "At pela alta carga tributria, os suecos exigem acesso rpido  prestao de contas dos gastos dos polticos com o dinheiro do contribuinte", ela completa. Duas vezes por ano, o pas divulga listas dos investimentos privados de todos os ministros do governo, incluindo o nome dos fundos e dos bancos das aplicaes. Um grau de transparncia que, para os nossos padres, chega a ser ofuscante. Mas nem sempre a transparncia resolve.  o que acontece com um dos maiores vetores de corrupo no mundo: o financiamento de campanhas. 
     O SEU VOTO vale a mesma coisa que o de algum que doou milhes de reais para o mesmo candidato? Provavelmente no. Esse desequilbrio cria o que alguns analistas chamam de corrupo legal, ou corrupo institucional, aquela exercida estritamente dentro da lei. Um dos maiores propagadores desse conceito  o jurista americano Lawrence Lessig, professor de Harvard. Lessig mostra que, nos EUA, 0,5% de superdoadores de campanhas so responsveis por mais de 60% do financiamento arrecadado nas primeiras fases da eleio - o que inviabiliza candidatos que no so bons na captao de recursos. 
     O resultado, segundo o pesquisador,  a paralisao de basicamente qualquer projeto de lei que ameace os interesses desses doadores. No Brasil, algo semelhante  vem acontecendo h algum tempo. De acordo com dados da Transparncia Brasil, 7% das empresas doadoras concentraram 64% do financiamento de campanha nas eleies de 2010 (que consumiram quase meio bilho de reais em doaes, diga-se). 
     A no existncia de almoo grtis tambm se manifesta aqui, lgico. E a conta aparece em escndalos como a Lava Jato: "No existe doao de campanha. So emprstimos a serem cobrados posteriormente, com juros altos, dos beneficirios das contribuies quando no exerccio do cargo". Quem disse isso, veja bem, no foi nenhum cientista poltico, mas um corrupto confesso: o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa, em delao premiada  Polcia Federal. 
     Apesar de no haver consenso quanto  melhor forma de acabar com esse toma-l-d-c, nenhuma entidade de combate  corrupo discorda de que  preciso, sim, diminuir o peso das contribuies privadas. Algumas delas, como a Transparncia Internacional, o Movimento de Combate  Corrupo Eleitoral (MCCE) e a Ordem dos Advogados do Brasil defendem a total eliminao de doaes de empresas privadas, alm de pedirem conteno nos gastos de campanha. "Com limites estritos, ficar muito mais fcil o controle, pois ser evidente para a prpria populao quando um candidato gastar demais", diz Bruno Brando, da Transparncia Internacional. 
     Tirar as empresas da jogada, porm, no impediria que os prprios donos das companhias fizessem doaes vultosas como pessoa fsica mesmo. Quem tem uma ideia de como impedir isso  Lawrence Lessig. Ele defende que cada cidado de um pas ganhe um "vale" - de R$ 100, por exemplo. E a decida para qual candidato vai doar seu vale. O Estado, ento, banca as campanhas conforme a quantidade de vales que cada candidato recebe. Em tese, isso deixaria um Jorge Paulo Lemann da vida em p de igualdade com o Z da esquina. A Transparncia Brasil, porm, acredita que nenhuma proibio nessa linha possa funcionar a contento, porque o fluxo de doaes/emprstimos continuaria por debaixo dos panos. A pior ainda: no teramos mais registro das doaes - informao crucial hoje para que, ao menos, seja possvel checar o quanto um poltico pode ter sido "balanado" por elas. "Acreditamos que o mais eficaz seria estabelecer um teto menor de doao, com base em um valor nominal, e no na porcentagem de 2% do faturamento, conforme permite a legislao atual, responsvel por todo esse desequilbrio", diz Natlia Paiva, diretora da Transparncia Brasil. 
      fcil entender de qual desequilbrio ela fala: se voc trabalha em uma pequena ou mdia empresa, 2% do faturamento parece uma porcentagem bem razovel, certo? Mas, digamos agora que voc trabalha na JBS, dona da marca Friboi, que faturou em 2014 mais de R$ 120 bilhes. Na prtica, isso significa que seu patro poderia doar a partidos e candidatos quase R$ 2,5 bilhes de reais. A JBS no chegou a tanto, mas nem ficou to longe: doou R$ 366 milhes a polticos nas eleies de 2014, o que a transformou oficialmente na maior doadora do Pas. Por outro lado, ela tambm  a recordista em receber dinheiro do governo. O BNDES injetou R$ 7,5 bilhes na Friboi nos ltimos anos, na forma de emprstimos e de compra de aes. Coincidncia? 
     Mas vale lembrar que tanto a JBS quanto outros megadoadores no podem ser confundidos com as empreiteiras da Lava Jato. Eles no esto corrompendo a lei - ainda que a lei, ao liberar doaes nababescas, oferea a grande brecha para que o interesse privado do doador fique acima do interesse pblico, o do eleitor. Mesmo assim, para a maioria dos analistas, a aprovao de uma reforma poltica que limite doaes no teria fora no combate  corrupo. No sozinha. " preciso fortalecer e reformar os rgos de controle, tais como os Tribunais de Contas e as controladorias, assim como o Poder Judicirio", diz Bruno Brando, da Transparncia Internacional. 
     O caso dos Tribunais de Contas talvez seja o mais exemplar de um rgo de controle que, na prtica, pouco controla. Como dois teros dos seus conselheiros so indicados por deputados e a Constituio  pouco exigente quanto  sua pr-qualificao (basta ter vagos "notrios conhecimentos jurdicos, contbeis, financeiros ou de administrao pblica"), no faltam por l ex-polticos julgando as contas de parentes, de aliados e at de inimigos. Um levantamento realizado em 34 Tribunais de Contas pela Transparncia Brasil em 2014 indica que, de cada dez conselheiros, seis so ex-polticos, dois sofrem processos na Justia ou nos prprios Tribunais de Contas e 1,5  parente de algum poltico local. 
     ASSIM COMO ocorreu em outros pases, no entanto, no ser nem no Legislativo nem no Executivo que se dar a batalha contra a corrupo no Brasil. " o Judicirio que decide, afinal, se haver ou no impunidade", diz a professora de Cincia Poltica da USP, Maria Teresa Sadek. "Por isso mesmo, instituies como o Conselho Nacional de Justia, que esto promovendo uma mudana institucional e de cultura nos Tribunais, precisam ser cada vez mais fortalecidos." 
     Mudana de instituies e de cultura: essa dobradinha tem sido a principal receita de pases que decidiram enfrentar a corrupo. "Quando as instituies garantem regras vlidas para todos, ningum se sente 'otrio' por segui-las", diz o filsofo Mrio Srgio Cortella, coautor de Poltica, Para No Ser idiota. No Brasil, porm, a diferenciao comea dentro da prpria Justia. De acordo com a lei da magistratura, por exemplo, juzes tm direito a 60 dias de frias (sem contar os recessos que podem adicionar mais 15). Alm disso, a mesma lei prev que a maior punio administrativa aplicvel a um juiz pelo mau exerccio da funo  uma  simples aposentadoria compulsria - e sem perda dos vencimentos. Ou seja: um juiz corrupto pode at entrar em depresso pela perda do cargo, mas no deixar de receber seus salrios pagos pelo contribuinte a menos que venha depois a ser condenado por processo penal - e mesmo assim no vai ficar em cela comum, com os outros presos. 
     Ainda que tudo esteja dentro da lei, essa cultura de privilgios  um dos principais entraves ao combate  corrupo. Se um cidado sabe que um poltico ou magistrado conta com uma srie de privilgios (como a imunidade parlamentar), por que se arriscaria a sofrer represlias denunciando uma autoridade corrupta? "Mesmo aqueles que consideram a corrupo algo moralmente condenvel so propensos a participar do esquema, uma vez que todos os 'outros' participam do jogo", afirmou o cientista poltico Bo Rothstein, da Universidade de Gotemburgo, no livro de Cludia Varejo. Ele lembra que, diferentemente do que muita gente imagina, a Sucia j foi marcada por subornos, e que os contatos privilegiados eram mais importantes do que as leis. Em meados do sculo 19, contudo, uma srie de reformas detonou o que ele chama de "Big Bang Institucional" - quando os cidados perceberam que as instituies se tornaram imparciais, a populao foi mudando de comportamento. A boa notcia  que, como lembra o cientista poltico sueco, embora a corrupo tenha, sim, caractersticas culturais, ela no  culturalmente determinada. 
     Ou seja: quanto mais imparciais, transparentes e eficientes forem as instituies, menos espao existir para a cultura do jeitinho brasileiro. S cuidado para no confundir "eficincia" com "brao forte", no sentido militar da coisa. Intervenes militares descabam em ditaduras militares, como aconteceu por aqui mesmo. E ditaduras so exatamente o contrrio de transparncia. Regimes assim destroem a liberdade de imprensa, tornam suas instituies mais opacas, menos permeveis  fiscalizao e, consequentemente, mais propensas ao crime, conchavo e ao favorecimento poltico. Como dizia o pensador italiano Norberto Bobbio, escndalo  apenas a corrupo que vem a pblico. Em sociedades pouco transparentes, claro, pode at no proliferar escndalos - mas h quase sempre muita corrupo. Que o diga a China. A estimativa  que 15 mil membros do Partido Comunista tenham fugido do pas nos ltimos 20 anos, levando o equivalente a R$ 400 bilhes "na cueca". 
     A atual encarnao da democracia brasileira, enfim,  jovem, mas nem tanto. Aos 26 anos de idade, j  hora de ela provar que tem maturidade para exigir as reformas necessrias (inclusive nas ruas, quando necessrio) e combater a cultura da corrupo como gente grande - sem tutela de generais, lderes populistas ou bonecos fabricados por marqueteiros polticos. Que transparncia, no Brasil, deixe de ser s uma caracterstica dos copos de cristal com que empresrios e polticos celebram acordos nebulosos. 

CORRUPO NO MUNDO
No ranking do IPC, 100 pontos significa zero corrupo. Zero, sujeira total. Veja os mais limpos, os imundos e os mdios, dos melhores para os piores:
1 Dinamarca (92 pts)
2Nova Zelndia (91 pts)
3 Finlndia (89 pts)
4 Sucia (87 pts)
5 Noruega (86 pts)
69 BRASIL, que divide essa posio com Bulgria, Grcia, Itlia, Romnia, Senegal e Suazilndia com 43 pontos. Estamos praticamente no meio da lista, na m companhia de pases tradicionalmente corruptos.
170 Iraque (16 pts)
171 Sudo do Sul (15 pts)
172 Afeganisto (12 pts)
173 Sudo (11 pts)
174 Somlia e Coreia do Norte (8 pts)

CORRUPO NAS AMERICAS
Veja a posio de alguns pases das Amricas no ranking do IPC. Dos menos corruptos para os mais (os que tm a mesma pontuao surgem na mesma posio):
Canad 10 (81 pts)
EUA 17 (74 pts)
Chile 21 (73 pts)
Uruguai 21 (73 pts)
Costa Rica 47 (54 pts)
Cuba 63 (46 pts)
Brasil 69 (43 pts)
El Salvador 80 (39 pts)
Peru 85 (38 pts)
Colmbia 94 (37 pts)
Panama 94 (37 pts)
Bolvia 103 (35 pts)
Mxico 103 (35 pts)
Argentina 107 (34 pts)
Equador 110 (33 pts)
Nicargua 133 (28 pts)
Paraguai 150 (24 pts)
Haiti 161 (19 pts)
Venezuela 161 (19pts)


4#2 BICHOS CORRUPTOS
A corrupo no  exclusividade dos brasileiros, nem do ser humano. Por cortesia da evoluo, a falta de carter come solta no reino animal - e at no vegetal.
Texto Alexandre Versignassi
Design Jorge Oliveira

     QUANDO UM MACACO no consegue o que quer, ele paga propina para ver se o negcio sai. Um chimpanz tpico no costuma ter muito acesso a grandes contratos com estatais. Ento, como no tem dinheiro, ele s quer amar. Tendo sexo na vida, est tudo bem, o resto ele vai levando. Mas isso no torna a vida deles mais fcil que a nossa. Pelo menos no a dos machos.  que as fmeas de chimpanz tm o mesmo problema das de outras espcies: s do bola mesmo para os mais fortes e bonitos. Mas os macacos feinhos deram um jeito de contornar isso. Como? Pagando propina. 
     Quando um chimpanz volta de uma caada bem-sucedida, nem pensa duas vezes: j chama alguma gatinha para um churrasco, ainda que um churrasco cru, e a dois  talvez o equivalente smio a convidar uma moa para jantar no japons. E a v se rola alguma coisa depois. 
     Geralmente rola. O suborno d to certo l na frica subsaariana, a casa deles, quanto costumava dar na Avenida Repblica do Chile nmero 65, a sede da Petrobras. As fmeas agradecem a refeio com sexo. No  exatamente um toma-l-d-c. A macaca no vai para a moita com o cara na hora s porque ele pagou o jantar dela. Mas no longo prazo, como dezenas de pesquisadores j observaram,  diferente: elas acabam colocando os doadores de carne em seu rol de amantes, como a Petrobras colocava os propineiros em seu rol de fornecedores. 

A FLOR DISSIMULADA 
     Outro bicho que apela para a corrupo nem  bicho.  a orqudea. Qualquer flor, na verdade,  um instrumento de dissimulao. As cores fortes e os perfumes marcantes so ferramentas para atrair insetos, e outros animais, de modo que eles carreguem o plen delas para outras plantas. Do ponto de vista de um vegetal, ter o plen transferido para outro indivduo  exatamente o que para um homem significa ter seu smen transferido para outro indivduo - ou indivdua. Significa sexo. E qualquer planta que se preze tambm no mede esforos para ter sexo. Na maior parte dos casos, a relao entre a planta e seu vetor sexual, o polinizador,  um jogo em que os dois lados ganham. A flor fornece nctar para a abelha, por exemplo, e a abelha carrega o plen da flor para outro indivduo fotossinttico. Mas nem tudo so flores no reino vegetal, porque tem quem burle essa regra para se dar bem. E  a que entra a orqudea. Um gnero especfico de orqudea, completamente desprovido de carter: a Bulbophyllum. Ela no produz nctar, ento no atrai a ateno das abelhas. O negcio dela  com outro inseto: a mosca varejeira. 
     Varejeira gosta de carnia, voc sabe. Ento a flor simplesmente finge que  um cadver. Srio. As ptalas dela tm o mesmo matiz daquele abajur da msica do Ritchie: cor de carne. E exalam cheiro de coisa podre. As varejeiras, ento, pousam l e se ferram: no acham carnia nenhuma. Mas a, quando as moscas vo embora frustradas, j fizeram o que a flor queria: o plen da danada j est preso no corpo das moscas, a ponto de bala para sair e fecundar outra orqudea. No fim das contas, uma relao que deveria beneficiar as duas partes acaba favorecendo s a planta. A mosca s paga de otria. Sempre. "E a prefeitura no faz nada!", diria um Datena do mundo das moscas. Pois . Aquele cidado que dizia "as rvores somos nozes" estava mais certo do que parecia. Mas talvez no haja forma de vida mais srdida que uma espcie de gazela, a Gazella thomsonii. Falemos um pouco mais dessa sacripanta ungulada. 

A GAZELA TRARA 
     Alm de ter um dos chifres mais bonitos da frica, essa gazela vive em bandos de centenas de indivduos (segundo a PM, milhares; pelo Datafolha, dezenas). E ela tem um hbito particular: quando uma gazela avista um predador, l longe, comea a saltar bem alto, usando as quatro patas para lanar-se ao ar. 
     Num primeiro momento, a maior parte dos pesquisadores interpretou a acrobacia como um modo de sinalizar o perigo para o resto do bando. Mais do que um gesto de altrusmo, seria um de herosmo: o salto atrairia a viso do predador, que geralmente  um guepardo. O guepardo  a Lamborghini da savana: faz de zero a 100 km/h em 3 segundos (mais do que qualquer outro animal - e do que a maioria das Lamborghinis, at). Bom, atrair a ateno de uma mquina dessas  suicdio. A gazela que salta para avisar as outras coloca a vida em jogo. Ento devia era ser canonizada, certo? 
     Talvez no. Para Amotz Zahavi, um zologo da Universidade de Tel Aviv, esse comportamento no tem nada de nobre. O israelense concluiu que a gazela pensa igual aquele cara da piada do tigre: 
     Dois sujeitos esto fazendo trilha e do de cara com um tigre. Um pega a mochila, tira um par de tnis de corrida, e comea a calar. O outro zomba: "No adianta. Voc no vai correr mais do que um tigre". "No mesmo", ele responde. "Mas vou correr mais do que voc."  exatamente o que se passa na cabea da gazela saltitante, pelo menos segundo a teoria de Zahavi. Os pulos no so para chamar a ateno do bando, mas para dar um aviso ao predador.  que os guepardos no so nada chegados em gastar gasolina  toa. Sempre preferem correr atrs das gazelas mais frgeis, lerdas, at para no exaurir o tanque a cada caada. Ao dar saltos ornamentais na cara do predador, ento, a gazela d uma exibio de fora e agilidade.  um aviso. Uma advertncia do tipo: "Escolhe outra gazela a porque, se voc vier atrs de mim, vou dar trabalho". Uma atitude lcida. S que to herica quanto a do cara da piada do tigre.  

O MORCEGO APROVEITADOR 
     Mas, ei: existe herosmo entre os animais, sim. Um desses benfeitores, imagine voc,  o morcego-vampiro, que passa o dia dormindo e,  noite, sai para chupar sangue, geralmente de algum mamfero grande. Parece uma vida mansa. Mas no. Primeiro, porque nem todo dia d para achar uma presa. E, se um deles passar 70 horas sem comer, morre. Isso de a morte estar sempre  espreita uma hora fez baixar um Jean-Jacques Rousseau na morcegada.  que eles desenvolveram um contrato social: hoje os morcegos doam uma parte do sangue que conseguem na caada para os companheiros que no tiveram a mesma sorte naquele dia. 
     Mas no falta quem tente burlar essa lei. At porque doar comida ali no  uma atitude trivial. O morcego tem que vomitar um pouco do sangue que bebeu na caada, na boca do beneficirio.  um processo que demanda tempo e energia. Mau negcio para indivduos que no podem passar trs dias sem comer. 
     A melhor estratgia do ponto de vista individual, ento,  trapacear: nunca dar almoo grtis para os parceiros. S receber, sempre que voltar para a caverna com os dentes abanando. Logo, todo bando de morcegos-vampiros tem seus aproveitadores. 
     Mas esse comportamento trapaceiro s vale a pena quando a grande maioria dos indivduos  honesta. Se a corrupo vira norma, comea a faltar doador no mercado. E nenhum morcego jamais vai ganhar comida quando falhar na caa. Como a espcie dos chupadores de sangue  frgil, porque aguenta pouco tempo sem comer, o bando todo se trumbica. Foi mais ou menos o que aconteceu com outro bando de chupins: os empreiteiros que fraudavam licitaes da Petrobras. No comeo, s sete empresas participavam das trapaas. Depois, 16, 17, 18... No fim j eram 23. A corrupo virou regra. Jlio de Almeida Camargo, um dos empresrios-delatores da Lava Jato, explica: "Havia uma regra do jogo: se o senhor no pagasse propina, no obteria contratos com a Petrobras". Ou seja: era tanto esquema que o prprio esquema canibalizou o esquema. 
     Mas os morcegos-vampiros levam uma vantagem sobre o Homo sapiens: os caras tm um esquema eficiente para punir seus corruptos. "Eles no do alimento para qualquer um. Os morcegos selecionam, ao longo do tempo, os parceiros mais confiveis para fazer suas doaes", diz o bilogo Gerald Wilkinson, da Universidade de Maryland, que descobriu esse comportamento e estuda o assunto h 30 anos. 
     Isso significa que s recebe comida quem doa comida. Os trapaceiros, que nunca doam nada, jamais ganham a confiana de ningum. Com a reputao manchada, ento, tendem a morrer de fome. Desse jeito, quem fica a um passo da extino no  a sociedade dos morcegos,  o prprio comportamento corrupto. Fica a dica.


4#3 TECNOLOGIA  O FUTURO SEGUNDO...
O futuro  imprevisvel. Vinte anos atrs, O Google nem existia, e ningum diria que a ento moribunda Apple se tornaria a empresa mais valiosa do mundo. Mas, investigando os projetos e as patentes desses gigantes (e de outros),  possvel enxergar o futuro que cada um deles imagina - e as consequncias que isso poder ter na sua vida.
Texto Bruno Garattoni e Anna Carolina Rodrigues

GOOGLE
Celular eterno -   raro algum manter um smartphone por mais de trs anos. No que depender do Project Ara, do Google, isso vai mudar. Ele  modular, ou seja, d para atualizar a tela, o processador, a memria, a cmera.  s desencaixar os bloquinhos e trocar por novos. O aparelho comea a ser vendido este ano. 

Lente para diabticos -  O Google tem uma diviso mdica que pesquisa solues para Alzheimer e diabetes, entre outras doenas. Um dos projetos  uma lente de contato que analisa o fluido lacrimal para medir o nvel de glicose e avisa a pessoa, por um sinal projetado no olho dela, se  hora de tomar insulina. 

Robs guerreiros -  O Google tem sete empresas de robtica. A principal  a Boston Dynamics, que desenvolve animais como o BigDog, um quadrpede de carga, e o Atlas, um aterrorizante humanoide de 1,80 m e 180 kg. Vo atuar em guerras. Mas podem ter verses civis - sobretudo se a ONU restringir, como pretende, o uso de robs em combate. 

Sem as mos - Desde 2011, os carros autnomos criados pelo Google j percorreram 1 milho de km nos EUA. A empresa  lder nessa tecnologia. E confia tanto nela que, ano passado, criou um prottipo radical, sem volante nem pedais (normalmente presentes como backup). Cem unidades esto sendo fabricadas para testes. 

Bales de internet - Dois teros da populao mundial no tem acesso  internet. O Google quer resolver isso lanando bales meteorolgicos, que ficariam a 20 km da superfcie e retransmitiriam o sinal de internet (4G). A empresa j est testando os bales, que so alimentados por energia solar. O sinal de cada um cobre uma rea de 40 km. 

Distopia genmica - A empresa 23andMe foi criada pela biloga Anne Wojcicki quando ela era casada com Sergey Brin, inventor do Google - do qual recebeu investimento. A empresa criou um servio de anlise genmica que prev o risco de 254 doenas. Foi proibido, mas pode ressurgir no futuro. O risco  que o seu perfil genmico vaze, e acabe usado para discriminar voc.

APPLE
Banco Apple - O sistema Apple Pay permite pagar compras usando o iPhone ou o Apple Watch. Basta aproximar o celular ou relgio do caixa registrador. Ele j  aceito por 200 mil estabelecimentos nos EUA. Se vingar, ser usado em grande parte das transaes comerciais no mundo - e a Apple se transformar numa instituio financeira poderosssima. 

Telas inquebrveis - Segundo uma pesquisa com donos de iPhone, 25% dos aparelhos tm a tela rachada. Deixar o smartphone cair no cho  o grande temor do homem moderno. Mas a Apple pretende abandonar o vidro e fazer aparelhos com tela de safira, muito mais resistente. Ela j investiu US$ 578 milhes numa fbrica desse material, que j est sendo usado no Apple Watch. 

Vcio no pulso - O Apple Watch acaba de ser lanado nos EUA. Ainda no se sabe aonde vai chegar, mas  bem provvel que seja um megassucesso. E que, daqui a cinco ou dez anos, olhar para o pulso seja um gesto to comum, e to compulsivo, quanto hoje  olhar para o smartphone - algo que, segundo um novo estudo, j est afetando a postura do ser humano. 

A reinveno do cool - No ano passado, a Apple gastou US$ 3 bilhes para comprar a Beats: marca que foi criada pelo rapper Dr. Dre e fabrica os fones de ouvido preferidos de celebridades e jogadores de futebol.  sua aposta para se manter atual e cool-tanto que a Beats prepara um novo servio de msica por streaming (porque baixar msica, como no iTunes, j virou coisa de tiozinho).
 
Cincia em escala global - A ferramenta ResearchKit, da Apple, permite criar apps de pesquisa cientfica. J existem cinco, usados em estudos sobre Parkinson, asma e outras doenas. No futuro, os sensores do iPhone e do Watch coletaro dados corporais de milhes de pessoas (com permisso delas) e enviaro para estudos.

Tit indeciso - A Apple tem contratado gente do setor automobilstico, como engenheiros da Mercedes e da Ford. Segundo o Wall Street Journal, ela j tem centenas de pessoas trabalhando secretamente num carro, o Titan Seria eltrico e inteligente, com direo robtica, e chegaria em 2020. A incgnita  a qualidade do GPS - os erros do aplicativo Apple Maps so folclricos. 

Tudo no lixo. Mas reciclado - A Apple integra ao mximo as peas dos seus gadgets. Eles ficam mais finos, mais leves, mais bonitos. Mas no podem ser atualizados, e acabam descartados. No futuro, com o mercado saturado, gadgets obsoletos no tero valor de revenda, e acabaro virando lixo eletrnico - como as TVs de tubo so hoje.

AMAZON
Corrida dos foguetes - O xod de Jeff Bezos, bilionrio dono da Amazon,  a Blue Origin: empresa que est desenvolvendo um foguete espacial. Ele j est em testes, e pode voar ainda este ano.  uma resposta direta  SpaceX, companhia criada pelo empreendedor tecnolgico Elon Musk (tambm dono da montadora de carros eltricos Tesla).

Drones  quitandeiros  A empresa j testa drones entregadores, que levam 25 kg, alcanam 100 km e voam a 200 metros de altura (acima dos prdios). Tudo para que o cliente receba seu produto em no mximo 30 minutos Inclusive verduras: os drones podero ajudar no Amazon Fresh, servio de entrega de hortifrtis que j opera em algumas cidades dos EUA.

MICRODOFT
Usina de gua autossuficiente - Bill Cates est por trs do Omniprocessor, mquina que transforma esgoto em gua potvel. Sua diferena em relao aos sistemas de purificao atuais  que ela  autossuficiente, ou seja, usa a energia presente nos prprios dejetos (que so incinerados). O esgoto de 100 mil pessoas gera 86 mil litros de gua por dia e eletricidade para 25 mil lmpadas.

Reator nuclear perfeito - No mundo Microsoft, o destaque so as iniciativas pessoais de Bill Gates. Como o TerraPower: um reator nuclear  prova de falhas. Ele seria movido a lixo nuclear reciclado (reaproveitado das usinas atuais) e funcionaria por at cem anos, sem precisar de manuteno. Seria compacto e no muito caro - cada bairro de uma cidade teria o seu. A meta  criar o primeiro prottipo at 2020

SONY
PlayStation ber alles  Ele  o produto mais lucrativo da gigante  e, no futuro, poder ser o nico. A Sony j vendeu a diviso Vaio, de PCs, separou o departamento de udio e vdeo, e pode se desfazer da diviso de smartphones. A ideia  focar no PlayStation, em jogos e contedo para ele: como o novo Vue, um servio de TV paga para PS4.

FACEBOOK
A vida dos outros - Ano passado, o Facebook pagou US$ 2 bilhes para comprar a Oculus, empresa que desenvolve um capacete de realidade virtual. Ele ainda est em verso beta, mas j pode ser usado para jogar e ver filmes. No futuro, permitir viver experincias virtuais compartilhveis via Facebook - como um protesto na rua ou as frias de outra pessoa, por exemplo.

NSA
E tudo bem escutadinho - Independentemente de como for nosso futuro tecnolgico, uma coisa  certa: ser ainda mais monitorado do que j . Quanto mais tudo se digitaliza e conecta, mais pode ser vigiado. A NSA (superagncia de espionagem americana) agradece. 


4#4 PERFIL  A GATA DE SCHRDINGER
Esta mineira causou um terremoto na fsica quntica com um experimento revolucionrio: manipulou ftons para criar um fantasma. E promete mais. Com vocs, Gabriela Barreto Lemos, a cientista mais radiante do Pas. 
Texto Alexandre Versianassi, de Viena

     "C no vai acreditar", me diz a mineirinha espevitada, num caf em Viena. 
     "Diz a, Gabi." 
     "Ento, quando eu estava na escola, a gente fez uma daquelas provas, tipo teste para o vestibular. Depois saiu l, na parede: 'Segundo lugar: Gabriela'. O primeiro colocado era aquele mais nerd. O tpico, que no falava com ningum. Torto. A uma menina virou pra mim e falou: 'Ei! No sabia que voc era inteligente, no!'". 
     Justo. Se voc topasse com a Gabi em alguma balada, ou no Carnaval de rua do Rio, que ela faz de tudo para no perder, no desconfiaria que a baixinha faladeira  uma das cientistas mais promissoras do Pas: a Ph.D. Gabriela Barreto Lemos, 32 anos, da Universidade de Viena. Ela  uma especialista em "tica quntica", o ramo da fsica que estuda os ftons - as partculas de energia que formam a luz. Gabi, diga-se,  to radiante quanto seu objeto de estudo. 
     Tanto que, se as outras crianas estranhavam alguma coisa nela na escola, era justamente a verborragia. "Me achavam doida, muito expansiva." Como quem fala demais d bom-dia para cavalo, a pecha que acabou pegando no foi a de nerd, mas a de avoada. "Pensavam que eu era uma... Lembra daquele Sai de Baixo, que tinha a Magda? Ento, achavam que eu era uma Magda, meio d. Mas eu no ia ficar divulgando as minhas notas pela escola, n?". 
     Hoje ela divulga. E para bem alm de qualquer escola. Gabi acabou de ganhar fama mundial no meio bber nerd da fsica quntica, por conta de um experimento revolucionrio que saiu de seu laboratrio. 
     Um laboratrio bagunado, mas bem equipado, que fica no subsolo de um prdio to peculiar quanto as coisas que a Gabi estuda l dentro. O lugar foi erguido em 1908 para abrigar pesquisas de outro ramo da fsica, inaugurado por outra mulher: a radiao, descoberta poucos anos antes, por Marie Curie. O prdio, que ainda tem resqucios de radiao em algumas salas, hoje  lar do Instituto de tica Quntica da Universidade de Viena, e fica na Boltzmanngasse, uma rua calma, que parece parada no tempo em que a cidade era capital do Imprio Austro-Hngaro. 
     Apesar de Viena ter o melhor transporte pblico do mundo, com folga, Gabi vai trabalhar de bicicleta. Sempre. Faa sol ou faa nevasca, como a que caiu no dia em que a gente se encontrou pela primeira vez. Desabava uma tempestade de neve daquelas de deixar jipe encalhado (e reprter brasileiro com febre). Mas para ela no era problema. "Meu namorado falou que eu ia morrer se viesse pedalando hoje. Mas eu vim, hahaha."  O bicicletrio em frente ao nmero 3 da Boltzmanngasse  sempre lotado. Naquele dia polar, s tinha a dela. 
     E no  s no pedal que a moa enfrenta o que aparecer pela frente. A carreira acadmica dela que o diga: mestrado aos 24 anos, pela UFMG. Aos 28, doutorado pela UFRJ. O ps-doutorado veio ainda aos 30, tambm pela Federal do Rio. Tudo isso sempre lidando com assuntos capazes de deixar at os melhores fsicos com febre, tipo estudar qual , afinal de contas, o real papel dos sistemas caticos no processo de decoerncia quntica. Hard science  isso a. 
     Gabi lida com o mundo microscpico, mas gosta de pensar grande. Quanto mais complexo for o problema, melhor. Por essas, o trabalho dela no demorou para comear a chamar a ateno no exterior. E a repercusso lhe deu estofo para se candidatar a uma vaga concorrida, em 2012: uma bolsa para trabalhar na Universidade de Viena, meca da cincia, que est para a tica quntica como o MIT est para a engenharia ou a Sorbonne para a filosofia. E o melhor: tudo isso com liberdade para fazer os experimentos que quisesse, com oramentos generosos e colaboradores de primeira linha. 
     Rolou a vaga. E agora ela trabalha no Instituto de tica Quntica da universidade, sob a tutela de um dos maiores fsicos vivos: Anton Zeilinger. Aos 69 anos, o austraco  a grande esperana de seu pas para o tetra no Nobel de fsica. Mesmo com a diferena de idade e de currculo, a qumica entre os dois bateu na hora: "Voc d as ideias mais doidas para o Anton e ele fala: 'Isso a t muito modesto... Tem que pensar mais alto'". Falar isso para a Gabriela  jogar gasolina no fogo. Tanto que foi numa conversa com Anton, no mesmo caf vienense do comeo deste texto, que veio a ideia daquele experimento revolucionrio, o que fez os olhos dos fsicos do mundo todo se virarem para ela no ano passado. 
     Vamos brincar de Sherlock Holmes para entender o que ela conseguiu. Primeiro eu mostro a cena do crime - quer dizer, o resultado do experimento. Depois a gente olha as pistas e desvenda o que realmente aconteceu. 
     A experincia foi toda nesta mesa de tica Quntica aqui em cima, onde ela trabalha todos os dias. Mas, para a gente visualizar melhor, imagine comigo outro cenrio. Assim: voc entra numa casa. Passa pelo corredor e v dois quartos iguais, um de cada lado, cada um com uma cama de casal. No quarto da direita, tem um gato em cima da cama. No da esquerda, s a cama, sem gato. Ento voc pega e tira uma foto do quarto da esquerda, o que s tem uma cama vazia. E quando olha para a imagem v um gato ali. Justamente o gato do outro quarto. Voc simplesmente no fotografou o bicho. Mas o gato do outro quarto surgiu na sua foto, do nada. De certa maneira, foi isso que ela fez. No infogrfico da prxima pgina voc v como  que tudo aconteceu de verdade, na mesa do laboratrio, com os lasers e espelhos envolvidos no experimento, alm do gato, que na vida real era s um molde milimtrico de cartolina. Mas no importa. O cenrio da casa descreve a mesmssima coisa. O que aconteceu, ento? 
     A soluo s fica elementar, meu caro leitor, se voc tiver uma pista que ainda no foi dada: saber que o experimento envolveu entrelaamento quntico. Para quem no conhece a coisa, vai aqui uma aula-relmpago. Voc pega um fton e divide em dois. O que surge  um par de ftons menores (com menos energia que o primeiro). Mas no fica nisso. 
     Esses dois ftons, por algum motivo, vo passar o resto da vida ligados. Se voc der um cutuco em um, o outro vai se mexer tambm. Instantaneamente. E no importa a distncia que separe um do outro. Mesmo: se voc pegar um deles e levar para a ustria, enquanto o outro fica quietinho no Brasil, a conexo continua idntica: mexeu no daqui, o de l "sente". Pode levar o troo at Pluto que d na mesma. A comunicao continua instantnea. 
     Est dada a pista. Se quiser parar de ler agora para pensar como isso leva  soluo do nosso caso, pode parar. Eu espero. De volta. E com a resposta premiada do dia: os ftons que formavam a luz dos dois quartos eram irmos. A imagem do gato no quarto da direita "cutucou" uma parte dos ftons que estavam ali. Nisso, seus ftons irmos, no outro quarto, responderam  perturbao de forma idntica, formando a imagem de um gato. De novo: quem refletiu no gato foi a luz do quarto da direita. S que a Gabi tinha dado um jeito de entrelaar essa luz com a do outro quarto (no infogrfico d para entender como ela fez isso no laboratrio). Graas a essa condio quase sobrenatural, os ftons do quarto da esquerda passaram a formar a imagem de um gato. Um gato que no estava l. E Gabi tirou uma foto dele. 
     Para visualizar a verso real do experimento,  s olhar aqui em cima. Quem faz o papel da luz de cada um dos quartos so dois feixes de raio laser (representados aqui em amarelo e vermelho), devidamente entrelaados. Um laser passa pelo molde de cartolina recortado na forma de gato, e vai para o lixo. O outro passa longe do gato, e segue rumo  cmera. Pronto: a imagem que surge no visor  a do gato, que estava gravada no molde de cartolina. Uma imagem com a qual os ftons do laser vermelho nunca interagiram. Parece insano.  insano. Mas deu certo. 
     Zeilinger d a dimenso do feito: "Antes, voc precisava coletar os ftons que vieram do objeto para fazer uma imagem dele", o fsico disse para a revista cientfica Nature. "Agora, pela primeira vez, voc no precisa mais". A Nature, para quem no sabe, no  exatamente uma "revista", como esta aqui, mas um peridico para o qual os cientistas mandam artigos tcnicos relatando seus experimentos. 
     Dos milhares que chegam todos os dias s mos dos editores, que tambm so cientistas, nem meia-dzia so considerados relevantes o bastante para sair ali - at porque a Nature  a publicao cientfica mais respeitada do mundo, no d mole para man. E o experimento do gato no s entrou ali, como foi um dos mais comentados de 2014. Sem falar que, na  apresentao do artigo, os editores chamaram a ateno para o fato de que Gabriela tinha conseguido "algo que parecia impossvel". No  todo dia que a Nature diz algo assim. To impossvel que a prpria Gabriela no tinha certeza se conseguiria fazer com que o gato fantasma aparecesse de verdade. "Eu falei para a designer que fez o molde: 'Olha: tem que ser um gatinho bem simples, porque esse negcio vai parecer um borro'", ela me contou, enchendo a boca. 
     O receio era porque a experincia toda precisava de uma baita sintonia fina para dar certo: escolher o laser certo, calibrar tudo de modo que ele realmente produzisse ftons entrelaados (o que acontece quando o raio passa por um cristal, que quebra cada um dos seus ftons em dois). Isso mais a parafernlia de espelhos e filtros que o povo da tica quntica tem de usar para domar seus ftons. No se trata de um trabalho de dias, mas de meses. E, como ela estava lidando com um experimento indito, qualquer problema que surgia no laboratrio parecia insolvel. "Ah, mas a eu baixo o Sherlock Holmes", diz Gabi, que, naturalmente,  f do detetive ("Adoro! A srie nova  perfeita! J li tudo, vi a srie velha, a nova, o..."). 
     Voltando para a cincia: "Estou l no laboratrio e vejo que alguma coisa no experimento t estranha, diferente. No deveria estar acontecendo. A eu imagino tudo como se fosse a cena de um crime". Ento, do mesmo jeito que um menino grita o nome de algum goleiro quando pula para defender uma bola, a Gabi fala: "Sherlock Holmes!". Com o espirito do personagem devidamente baixado, ela vai buscar uma soluo. "Os meninos morrem de rir. Me acham com-ple-ta-men-te doida." Quando um dos "meninos" (os colegas e estudantes que ajudam nos experimentos) sugere alguma soluo que parece prematura, ela ensina: "Calma... A gente tem que ser Sherlock. Vamos pensar, pensar...". 
     Pelo jeito, a ttica funciona mesmo, porque em seis meses (pouco, para os padres da fsica experimental)  l estava o gato. "Estava obcecada. Uma aluna tinha me chamado para escalar montanha com ela. Queria que eu relaxasse. E eu disse: "No vou. Estou sentindo que t chegando...". 
     Estava mesmo. Dez da noite a Gabi liga para a amiga: "Aaaaahhhh! To vendo o gatinho!", ela revive o momento para mim, feliz. E lembra que o resultado foi bem melhor que o tal do borro que ela mesma esperava. "Deu para ver at o rabinho, hahaha." Rabinho, orelhinha... Exatamente como a gente reproduz aqui  esquerda. No parece, mas a resoluo da imagem  excelente para uma tcnica que acaba de nascer - e que flerta com as fronteiras do conhecimento humano, porque a prpria cincia simplesmente no explica como o entrelaamento funciona. S sabe que a coisa existe. 'Tem uma troca de informao entre os ftons ali. Mas por onde essa informao passa? Onde ela vai estar se eu quiser localiz-la?", Gabi se pergunta. 
     Ela talvez passe a vida sem saber, porque precisamos de toda uma nova cincia, que v muito alm da fsica quntica de hoje, para termos uma resposta. Mas a cincia  assim mesmo. Isaac Newton, ao formular a teoria da gravitao, disse, modestamente, que tinha pouco dele ali. Que, na verdade, estava "sentado no ombro de gigantes" - os gnios que tinham vindo antes dele, abrindo trilha a faco na mata da cincia. E Gabi, do alto do seu 1,55 m, j mostrou que  uma desbravadora de brao forte. 
     Uma exploradora que, por sinal, aproveitou seu experimento para homenagear um gigante do calibre de Newton: Erwin Schrdinger. Em 1935, o austraco bolou uma experincia terica para deixar claro o quo bizarras eram as leis da fsica quntica, muitas das quais ele mesmo tinha descoberto. Schrdinger mostrou que, sob uma condio bem especfica, um gato dentro de uma caixa estaria em dois lugares ao mesmo tempo: morto, deitado na caixa, e vivo, de p (veja na pgina 49; e no me vai fazer em casa, porque  s uma experincia mental mesmo). Bom, ao escolher a imagem que queria para protagonizar seu experimento, Gabi acabou dando vida ao gato de Schrdinger. Colocou um gato "em dois lugares ao mesmo tempo", afinal de contas. 
     Ironicamente, o que era para ser uma referncia a Schrdinger acabou dando um carter de fofura a um experimento que, de outra forma, pareceria sisudo. Foto de gato, afinal, sempre chama a ateno: seja no Instagram, seja na Nature. "No saquei que ia causar tanto au. A gente achava que a repercusso grande mesmo seria s com o nosso prximo experimento." 
     Sobre esse prximo, em que ela est trabalhando agora, a mineira d uma de mineira: fica quietinha. No abre a boca. Mas, se a coisa est sendo feita no laboratrio da nossa gata de Schrdinger aqui, uma coisa  certeza: quando sair, c no vai acreditar.

O GATO DE SCHRDINGER
O gato aqui  o protagonista de um experimento imaginrio, criado em 1935: a fsica quntica diz que uma partcula pode existir em vrios lugares ao mesmo tempo, ao menos quando no tem ningum olhando para ela. Na hora em que a partcula  observada, assume uma nica posio. Bom, ento voc coloca uma partcula, um gato e um frasco de gs txico numa caixa. A posio da partcula pode acionar um martelo, e determinar se o frasco vai ser quebrado ou no. Mas, enquanto voc no abre a caixa, a partcula estar em vrios lugares ao mesmo tempo. Ou seja: vai acionar e no acionar o martelo. E o gato estar vivo e morto simultaneamente. S quando voc abre a caixa uma das duas realidades se impe. 

O EXPERIMENTO
A imagem do gato, l no final, surge a partir de ftons que nunca viram o molde em forma de gato. Parece impossvel. Mas foi o que aconteceu no laboratrio da Gabriela. Entenda:
1- LASER -  A fonte solta um laser direto para um cristal. Nisso O MINERAL QUEBRA cada um dos ftons do laser em dois.
2- DIVISO  O resultado so DOIS RAIOS, um feito de ftons vermelhos e outro de ftons infravermelhos (em amarelo aqui, j que eles so invisveis).
3- ENTRELAAMENTO  Esses dois tipos de fton nascem como gmeos. Um sente o que acontece om o outro. Ou seja: so FTONS ENTRELEADOS.
4-  O REGISTRO  Os ftons seguem para um espelho especial, que deixa passar o raio vermelho e reflete s o infravermelho, lanando-o  RUMO AO GATO recortado aqui nesta cartolina.
5- LIXO  Os FTONS INFRAVERMELHOS so descartados. Os nicos ftons que chegam  cmara so os vermelhos, que jamais viram o gato.
6- IMAGEM-FANTASMA  E surpresa: graas ao entrelaamento, os FTONS VERMELHOS registram o que seus irmos tinham visto. Ento a cmera recebe a imagem do gato. E a magia da fsica quntica salta aos olhos, com uma fofura devastadora.


4#5 HISTRIA  O CO QUE VIROU SANTO E MAIS 5 CASOS HISTRICOS ANIMAIS
Os bichos so nossos amigos, nossos servos, nossa comida. Mas, na Antiguidade e na Idade Mdia, foram outras coisas: santos, bruxos, polticos - e at bandidos.
Reportagem Bruno Mosconi
Edio Bruno Gorattoni

GUINEFORT: DA INJUSTIA  "CONONIZAO"
     ENTRE O FINAL DO SCULO 12 e o comeo do sculo 13, existiu um pequeno castelo na diocese de Lyon (400 km ao sul de Paris). Era uma propriedade modesta, que no tinha vigias - s alguns ces de guarda. Certo dia, o dono do castelo e a esposa precisaram ir at uma cidade vizinha. Deixaram o filho pequeno sozinho por algumas horas. E, bem nessa ausncia, algo terrvel aconteceu: uma cobra entrou no quarto da criana. Um dos cachorros, um galgo chamado Guinefort, notou o perigo e atacou a serpente com vrias mordidas. Matou a cobra, mas a criana e o quarto ficaram todos sujos de sangue. Algumas horas depois, quando o casal voltou de viagem e se deparou com aquela cena, a me entrou em pnico. Ela achou que o sangue era do filho, e que a criana havia sido atacada por Guinefort. Enfurecido, o marido pegou sua espada e, com um movimento rpido, cortou a cabea do cachorro. Mas o casal logo viu que a criana estava bem, dormindo em paz. E encontrou a cabea da serpente jogada num canto do quarto. Eles haviam cometido uma atroz injustia ao matar o pobre cachorro. 
     O casal se sentiu em dbito com Deus pela intercesso milagrosa de Guinefort, e pelo modo como ela foi ignorada. Envergonhado, o senhor do castelo providenciou ao cachorro um enterro com todas as honras possveis. O casal se mudou algumas semanas depois. A histria foi sendo repetida, e aumentada, pela populao local. Guinefort caiu na boca do povo, passou a ser adorado como um mrtir cristo - e recebeu dos camponeses locais o ttulo de santo. Mulheres de diversas regies da Frana passaram a visitar o tmulo do animal, na esperana de alcanarem suas bnos e curarem seus filhos doentes. 
     A Igreja no reconheceu a santidade do cachorro. O frei dominicano Estevo de Bourbon, que trabalhava para a Inquisio medieval, escreveu um relato do caso. Para ele, aquilo era um absurdo,  e as adoradoras de Guinefort estavam negligenciando a sade de seus filhos, j que o animal no era milagroso. Mas, mesmo tendo os poderes da Inquisio ao seu dispor, o frei preferiu no processar as mulheres por heresia. Provavelmente ele percebeu que no existia maldade nas aes dessas mes, que s queriam ver os filhos curados. 
     Antes do sculo 13, quando os atos heroicos de Guinefort o transformaram em santo popular, os europeus j acreditavam que os cachorros tinham poderes msticos. Baseados nisso, muitos senhores e cavaleiros medievais empregaram cachorros entre seus trabalhadores, na esperana de que doenas e ferimentos humanos fossem curados com lambidas, e para que os soldados fossem seguramente escoltados pelos animais ao retornarem de batalhas muito violentas. O frei Estevo no mediu esforos para acabar com as supersties em torno de Guinefort, e chegou a exigir a exumao dos restos mortais do cachorro, ordenando a seus subordinados que a ossada fosse queimada e enterrada bem longe de Lyon. H indcios de que o frei tenha at ameaado os camponeses com excomunho e exlio, caso eles insistissem em adorar Guinefort. 
     Essa presso provavelmente teve algum resultado, mas no acabou com a venerao ao cachorro. O frei Estevo morreu em 1260, cinco anos depois de concluir seu tratado sobre a f (no qual dava especial ateno a mitos e supersties). Mas a crena em Guinefort acabou indo muito mais longe. A prtica de apelar ao cachorro para a cura de bebs e crianas durou at o sculo 19, e algumas regies do interior da Frana tinham at mapas para orientar quem peregrinava at o tmulo original do cachorro milagroso. Mesmo no sculo 20, entre as dcadas de 1960 e 1970, o herosmo de Guinefort ainda era celebrado nos arredores de Lyon.

SO CRISTVO, O MRTIR QUE LATIA
     UM SANTO HUMANO fez o caminho inverso de Guinefort. Essa histria comea em Cana (atual territrio de Israel, Lbano, Palestina e Sria), onde, segundo a lenda, os homens eram fortes e ferozes. Dois termos hebraicos eram usados para descrev-los: "Cainita" (que significa "filho de Caim"), e sua derivao "Cananita". Entre os sculos 6 e 9, os termos se confundiram com outra palavra: "Caninita", que significa "homem-cachorro". So Cristvo nasceu no norte de Cana. Quando a regio foi tomada pelos romanos, entre os sculos 3 e 4, acabou preso, e foi descrito pelos captores como um "lder caninita". Esse pequeno erro de interpretao pode ter atiado o imaginrio popular - que passou a enxergar Cristvo como um cachorro gigante. 
     A verso oficial diz que ele foi executado, mas a lenda medieval  bem diferente. Segundo ela, Cristvo se libertou e decidiu, como bom e fiel co, encontrar e servir ao maior dos reis. Descobriu que, para muitas pessoas, esse rei era Jesus, e resolveu procur-lo. Mas Jesus estava morto, e Cristvo no entendia como era possvel ach-lo. Um sbio eremita o instruiu a procurar Jesus por meio da caridade, ajudando algumas pessoas a atravessarem um rio que passava pela regio. Ao tentar ajudar uma criana, Cristvo notou que o menino ia ficando mais e mais pesado. Usando toda sua fora, ele conseguiu terminar a travessia - e descobriu que a criana era uma manifestao do prprio Cristo. 
     Para acabar com a histria de que o santo era um homem-co, a Igreja deu a seguinte explicao. A boa ao dele teria comovido Jesus, que o presenteou com o fim da "maldio de Cana". Cristvo ganhou um rosto humano, e a limpeza de esprito necessria para que fosse canonizado, no sculo 15. 

INCITATUS: O CAVALO QUE QUASE FOI SENADOR
     O IMPERADOR CALGULA, que reinou em Roma entre os anos 37 e 41, tem fama de cruel e insano. Mas no se pode dizer que tenha sido maldoso com os animais. No com os seus, pelo menos. Calgula tinha uma grande tropa de cavalos, dos quais gostava muito. O principal era Incitatus (nome que significa "O motivado"), que tinha 20 funcionrios cuidadores ao seu dispor. Calgula mandou construir uma pequena torre de mrmore e marfim para servir de estbulo ao animal, e fazia de tudo para no estressar Incitatus. At mandar a guarda imperial aquietar a vizinhana nos horrios em que o cavalo estava dormindo. 
     Calgula adorava Incitatus, e frequentemente almoava ou jantava na companhia dele. O cavalo comia a mais fina cevada e alguns gros selecionados, mas tambm h indcios de que o imperador o tenha alimentado com vinho e diversas carnes. Alm de ser bem-tratado, o bicho tinha um futuro brilhante pela frente: Calgula queria nome-lo senador de Roma.  bem possvel que a conspirao que resultou no assassinato do imperador, no ano 41, tenha sido estimulada por essa desonra (os polticos teriam se enfurecido ao se ver equiparados a um cavalo). Alguns historiadores afirmam que Incitatus foi morto na mesma ocasio.

O PAPA GREGRIO 9 E O MASSACRE DE GATOS
     GREGRIO 9 era um homem conhecido pela bondade. Mas logo ao ser eleito papa, em 1227, mostrou seu outro lado. Ele foi diretamente responsvel por uma cruel caada de hereges na Alemanha e pela criao de uma "central de treinamento" de inquisidores em Roma. E tambm odiava animais, em especial os gatos. Embora jamais tenha assumido isso com todas as letras, o papa redigiu um documento oficial, em algum momento da dcada de 1230, dizendo que os felinos, em particular os gatos pretos, eram encarnaes do diabo e tinham a ver com rituais de bruxaria. Imediatamente aps a divulgao do documento, os europeus mergulharam em um frenesi de violncia contra os pobres bichos. As declaraes do papa, aliadas ao fato de que algumas regies perifricas da Alemanha e da Inglaterra ainda cultuavam gatos como divindades pags, estimularam um dos maiores massacres de animais da histria. Ao longo de dcadas, gatos de todas as partes do continente, independente de cor ou procedncia, foram brutalmente mortos em fogueiras, espancamentos e enforcamentos pblicos. Gregrio jamais se pronunciou contra esses atos de violncia - possivelmente porque estava satisfeito com eles. E at hoje, quase 800 anos depois, o preconceito contra gatos pretos ainda existe.

A GRANDE VINGANA FELINA
     A PESTE NEGRA, uma epidemia de peste bubnica causada pela bactria Yersinia pestis, assolou a Europa ao longo do sculo 14. Ela comeou na Siclia em 1347 e se alastrou principalmente para Itlia, Frana, Portugal, Espanha, Inglaterra e Alemanha nos quatro anos seguintes. Estima-se que a Peste tenha matado mais de 400 milhes de pessoas. Uma tragdia quase inimaginvel. A bactria Y. pestis  comum em roedores, e se espalhou devido  grande quantidade de ratos nas cidades europeias. E os ratos proliferaram porque seus predadores naturais, os gatos, existiam em menor nmero - j que o papa Gregrio 9, no sculo anterior, havia induzido a populao a acabar com eles (como conta o texto acima). Aqui se faz, aqui se paga. 

GAFANHOTOS NO BANCO DOS RUS
     DEPOIS DA PESTE NECRA, alguns europeus passaram a acreditar que a violncia do mundo animal no era s um reflexo da fria punitiva de Deus contra o homem. Talvez os bichos fossem responsveis por suas aes contra o ser humano (como espalhar doenas). E isso deu origem a um costume inslito: julgar e condenar animais por crimes. Ratos e porcos eram acusados de violncia contra crianas e de carregar espritos demonacos, e condenados  morte. Ces violentos eram proibidos de entrar em certas vizinhanas, cavalos e jumentos preguiosos pegavam priso perptua. Mas o alvo principal eram gafanhotos e besouros, acusados de destruir plantaes nos sculos 15 e 16. Dois ou trs representantes desses insetos eram levados  presena dos juzes, em um processo que costumava se concluir com a pena de morte. Seus cmplices no presentes, porm, no eram esquecidos: os destruidores de plantaes eram condenados ao exlio ou  excomunho.


4#6 VIOLNCIA  J EXISTE PENA DE MORTE NO BRASIL
Sem o aval da Justia, milhares de pessoas so executadas por ano pelo Estado. A polcia decide, nas ruas, quem merece viver ou morrer. E  apoiada pela populao, que aplaude um cenrio de guerra.
Reportagem Camila Almeida
Edio Denis Russo Burgierman

	ERA SEMANA SANTA, e uma ao da Unidade de Polcia Pacificadora (UPP) aterrorizava o Complexo do Alemo, no Rio de Janeiro. Quando policiais cruzaram com um grupo de homens armados na Rua 2, teve incio mais um episdio da guerra que domina o morro. Os tiros anunciavam, s quatro da tarde da quarta-feira, o fim prematuro da Quaresma. Quando silenciaram, j na quinta-feira santa, tinham calado tambm quatro vidas. Entre elas, a do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, que estava na porta de casa quando levou um tiro de fuzil na cabea. Foi assassinado por um policial, que virou as costas sob a pecha de "covarde!" e sob o choro desesperado de uma me. 
     Elizabeth de Moura Francisco, de 41 anos, tambm estava em casa quando foi baleada. Era funcionria de uma creche no alto do morro. Sua filha Maynara, de 16 anos, acabou atingida no brao. As duas foram levadas para o hospital s pressas, mas s a menina  voltou para casa. O jovem Mateus Gomes de Lima, de 18 anos, foi executado na Rua Canitar, numa troca de tiros em que o adolescente Davyson Monteiro da Silva, de 15 anos, tambm acabou baleado, mas resistiu aos ferimentos. J Rodrigo de Souza Pereira, de 24 anos, nem chegou a receber socorro. Levou um tiro na cabea e permaneceu estendido no cho, com o sangue melando a sola dos coturnos e dos chinelos dos moradores que se aglomeraram em sua volta. 
     Se no houvesse tantos celulares em punho,  possvel que aes como essas jamais fossem notcia alm daquelas ruas. Vdeos e fotos dos corpos ensanguentados e dos abusos cometidos pelos policiais foram massivamente compartilhados. Nas redes sociais, moradores se encarregaram de fazer a cobertura em tempo real da tragdia. Uma passeata de denncia, na sexta da Paixo, foi duramente reprimida: bombas de gs e spray de pimenta foram lanados nos manifestantes. No domingo de Pscoa, o governador Luiz Fernando Pezo anunciou que vai intensificar o policiamento no morro. 

SUSPEITOS POR DEFINIO
     Aes como a do incio de abril so rotina nos bairros pobres brasileiros. Qualquer morador  por definio suspeito e precisa provar, todos os dias, sua inocncia. Em fevereiro, morreu nas mos da polcia o adolescente Alan de Souza Lima, de 15 anos, no mesmo Rio de Janeiro. Estava correndo pela rua com os amigos, brincando, quando levou um tiro. Com o celular em mos, gravou sua prpria morte, e o vdeo desmente a verso dos policiais. No boletim de ocorrncia, constam relatos de confronto com policiais. Tambm ficou registrado que Alan portava uma arma. A gravao surge como a prova da inocncia, infelizmente tardia. 
     A polcia brasileira  uma das mais letais do mundo. Seis pessoas morrem, todos os dias, pela ao de policiais. S em 2013, foram 2.212 cidados executados pelo Estado. Em cinco anos, nossa polcia matou tanto quanto a dos americanos num perodo de 30 anos.  o que escancaram os dados do ltimo Anurio Brasileiro de Segurana Pblica. J a pesquisa Desigualdade Racial e Segurana Pblica em So Paulo, desenvolvida por pesquisadoras da Universidade Federal de So Carlos (UFSCar), aponta que os jovens negros so maioria nas mortes. Das vtimas mortas por policiais entre 2009 e 2011, 61% eram negras. Mais da metade tinha menos de 24 anos. 
     Nada disso  de hoje. A sociloga Samira Bueno, diretora do Frum Brasileiro de Segurana Pblica, analisa que a letalidade da polcia militar tem razes na sua formao, dois sculos atrs, quando o ideal era a manuteno da ordem a qualquer custo. Pouco mudou. Em maio de 1932, o estopim da Revoluo  Constitucionalista foi quando a polcia matou quatro estudantes que se manifestavam contra a interveno de um representante da ditadura no governo paulista. No  difcil perceber que esse tipo de atuao perdura at hoje, s que nas periferias, e com muito mais frequncia. "A Constituio de 1988 no reformou a polcia. Estamos vivendo esse momento agora, passando pelo processo de adequ-la, em um novo movimento democrtico", explica, salientando a necessidade de mudar o paradigma. "Para muitos, o policial  um combatente a servio da lei, quando, na verdade, o policial  um servidor pblico a servio do cidado." 

MUDANA DE INIMIGO 
     Mas foi a partir da ditadura militar no Pas que a letalidade policial ganhou evidncia. No final da dcada de 1960, com a atuao do Esquadro da Morte, sob comando do delegado Srgio Fleury, policiais exterminavam guerrilheiros, protegidos pelo discurso de defenderem a sociedade contra os "maus elementos" que perturbavam a ordem pblica. O grupo era louvado pelas secretarias de segurana do Rio e de So Paulo e at por parte da imprensa. "Durante a ditadura, o guerrilheiro era o inimigo", comenta o especialista em violncia Bruno Paes Manso, pesquisador da USP, que analisou a histria dos homicdios em So Paulo sob a tica da prtica policial. 
     A redemocratizao chegou, mas os policiais continuaram os mesmos. E o padro de atuao tambm. "O inimigo deixa de ser o guerrilheiro e passa a ser o bandido. Extermin-lo resolveria o problema da desordem", diz o pesquisador. Em paralelo, a criminalidade nas grandes cidades foi mudando de figura. At meados dos anos 1960, os assassinatos aconteciam apenas na esfera familiar. Era o caso do marido que matava a mulher ao descobrir uma traio ou de parentes que se matavam por dvidas mal resolvidas. "O homicdio era um tipo de ao antissocial. Quem o cometia era quase um monstro", lembra o pesquisador. 
     Com o desenvolvimento da cidade de So Paulo, houve migrao intensa de habitantes da zona rural para a cidade e eles se instalaram nas periferias. Entretanto, as geraes que nasciam j no reconheciam suas razes do interior. Envergonhavam-se da caipirice dos pais. "Esses jovens entraram para a criminalidade para conquistar destaque e poder no meio urbano", avalia. Ento, os crimes foram se desvinculando da esfera familiar para se tornar um problema social. Como uma resposta a isso nasceu a figura do justiceiro, nos anos 1980, que vingava especialmente os frutos roubados do trabalho, extremamente valorizado naqueles bairros erguidos por trabalhadores. Os prprios justiceiros eram, na maior parte das vezes, migrantes rurais. Se espelhavam na atuao letal da polcia para atuar. Estima-se que tenham matado mais de mil pessoas na Grande So Paulo, o que gerou ainda mais ciclos de violncia e vingana. 

O EXTERMNIO LEGALIZADO 
     Hoje, dentro dos batalhes, ainda existem grupos de extermnio. Geralmente se formam para vingar a morte de algum colega e ganharam fora em 2006, quando pipocaram os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) vitimando policiais. Em resposta, 493 foram mortos em uma semana, no episdio que ficou para a histria como os Crimes de Maio. Em 2012, os  ataques em massa se repetiram, as respostas tambm. E esse embate armado est longe de acabar. 
     Os PMs mais novos so os mais suscetveis s regras dos grupos de extermnio, at para serem respeitados pelo grupo e pelos oficiais que os comandam. Para o advogado Jlio Csar Neves, ouvidor da Polcia do Estado de So Paulo, a desarticulao desses grupos passa pelo combate  impunidade. "Os policiais mais novos fazem o que fazem porque sabem que nada vai acontecer com eles. No veem ningum precisando responder pelos seus atos", critica. Uma das maiores brigas da Ouvidoria  conseguir que os crimes cometidos por policiais sejam julgados corretamente. Na pesquisa desenvolvida pela UFSCar, em So Paulo, consta que 94% dos agentes autores de mortes no precisaram responder judicialmente - o argumento  de que agiram em legtima defesa ou de acordo com o exerccio da funo. Apenas 4% dos policiais foram indiciados, e s uma poro ainda menor que essa deve ter sido condenada e punida. 
     Em grupos do WhatsApp e em blogs, policiais compartilham fotos de corpos baleados em operaes sem qualquer receio. Celebram a morte de criminosos. "A mentalidade  de guerra. E a estrutura estimula isso, existe uma moral da tropa a ser mantida", aponta Paes Manso, que participou de um desses grupos por alguns dias em maro. Essa moral que ele menciona tem a ver com no se acovardar, nem deixar barato. "O policial que mata  valorizado,  considerado um verdadeiro homem e ganha status por ser o cara com sangue nos olhos, que faz de tudo pela corporao", diz. Mas  importante no deixar rastros publicamente nem correr o risco de criar provas contra si mesmo. Para isso, existem artifcios, como a utilizao de toucas ninja, o despejo de cadveres em cemitrios clandestinos, a coleta das cpsulas de balas aps o assassinato e at o chamado "kit flagrante", que alguns policiais carregam para forjar a cena do crime: plantam armas brancas, armas de fogo sem registro ou drogas no local, para defender que a vtima era criminosa. 
     A Polcia Militar de So Paulo, que respondeu s nossas perguntas por meio do seu centro de Comunicao Social, nega a existncia de qualquer prtica criminosa dentro da instituio e diz ser implacvel quando so identificados "bandidos usando farda". "Qualquer morte suspeita  prontamente investigada. O envolvimento de policiais, embora seja exceo,  exemplarmente punido quando identificado", diz a nota. Salientaram que, em 2014, 305 policiais militares foram demitidos ou expulsos da corporao, como punio pela participao em atividades criminosas. 

A LETALIDADE  A REALIDADE 
     Para tentar impedir que os casos fossem forjados, a Secretaria de Segurana Pblica de So Paulo determinou, em 2013, que policiais no poderiam mais prestar socorro s vtimas e, assim, garantiriam que o local do crime e a idoneidade da investigao fossem preservados. Tambm foram proibidas as expresses "auto de resistncia" e "resistncia seguida de morte" nos boletins de ocorrncia, devendo ser substitudas por "leso corporal ou morte decorrente de interveno policial". A mudana altera a forma como se enxerga o fato: ele tem um autor, e  um policial. Em maro de 2015, foi aprovada uma resoluo que exige que, em casos de mortes cometidas por policiais, o Ministrio Pblico e a Corregedoria de Polcia sejam  acionados imediatamente. 
     Na sala do Major Renato, do Batalho da Polcia Militar do bairro de So Mateus, na zona leste de So Paulo, policiais se queixam da nova medida. "Eles fazem de tudo para incriminar o policial, como se ns fssemos os criminosos", reclama o major. A delegacia de So Mateus foi a que mais registrou mortes cometidas por policiais em 2014: chegaram a 16. Os agentes alegam que precisam lidar com situaes difceis todos os dias. "Aqui  uma das regies mais violentas da capital. O Samu no atende uma ocorrncia na favela se a polcia no entrar primeiro", relata o major. "Muitas vezes, somos recebidos com tiros." Confrontos envolvendo policiais de folga tambm so frequentes. "O bandido chega apontando uma arma, colocando em risco a vida do policial, e ele vai fazer o qu, seno responder  altura?", questiona o Major Renato. 
     A Polcia Militar de So Paulo afirma que o policial  preparado para situaes de tenso e que todos possuem suas prprias armas, coletes  prova de balas, cassetetes, balas de borracha e spray de pimenta. " importante ressaltar que a opo do confronto  sempre do criminoso, no da polcia", diz a nota. Sobre os altos ndices de letalidade, a PM se disse insatisfeita. Em 2013, foram 635 pessoas mortas no Estado, maior nmero no Brasil. J na taxa de mortos pela polcia em relao  populao, So Paulo ficou em quarto lugar. "O valor defendido por qualquer polcia sria  a vida, independentemente de ser criminoso." 

A POPULAO APONTA A ARMA 
     Um grupo de admiradores da Rota, a tropa de elite de So Paulo, criou um blog para exaltar as aes do grupo. O agrupamento  o que causa o maior nmero de mortes a civis: s em 2014, foram 13 casos registrados. Numa das postagens, comemoram a execuo de um homem suspeito de j ter matado um policial, que se vangloriava disso nas redes sociais. "Ladrou tanto que um fim trgico foi inserido  sua trajetria" diz o texto. Fotos do homem com a cabea estourada se misturam a outros corpos ensanguentados presentes no blog. Entre os comentrios, um leitor pondera: "Me sinto triste ao me deparar com uma cenas dessas... a me lembro que ele era um bandido, a tristeza passa e abro um sorriso. Afinal, um a menos". 
     A ideia de que bandido bom  bandido morto est disseminada tanto na corporao quanto na populao e acaba blindando quem mata. O julgamento, a condenao e a execuo acontecem em segundos, na rua, sem qualquer investigao ou sentena. "A gente est delegando ao policial a deciso de quem deve viver ou morrer", critica Samira Bueno. Vivemos como se tivssemos pena de morte, s que no temos. E mesmo que ela constasse no Cdigo Penal, estaramos ignorando um rigoroso protocolo legal a seguir. 
     Nos Estados Unidos, onde a maior parte dos Estados admite a execuo legal, 35 pessoas cumpriram essa pena em 2014, com durao mdia de 18 anos desde a sentena at a execuo. Na Indonsia, onde o brasileiro Marco Archer Moreira foi executado em janeiro deste ano, no teve nenhum caso em 2014. Por mais que cerca de 30 pases adotem a pena capital, so minoria. Em 1945, quando foi criada a ONU, apenas oito naes tinham abolido a pena de morte. Hoje, so 140. 
     A sociloga Samira Bueno avalia que, no Brasil, essa pena de morte no institucionalizada, mas presente nas ruas,  motivada, em parte, pela descrena no sistema judicirio. "O policial  entendido como um  heri contra o crime. Por isso que segmentos expressivos da populao apoiam essas prticas da polcia." Essa crise na segurana pblica desperta o desejo de vingana na populao. E ela acaba participando dessa guerra de dio, alimentando um ciclo em que policiais se orgulham de matar bandidos e criminosos se orgulham de matar policiais - ostentando tatuagens com a figura de palhao no corpo para indicar que so matadores de agentes pblicos. 
     "O problema  que no se tem percebido um dos efeitos mais perversos disso, que  a morte dos prprios policiais. Quando matam, eles se tornam vtimas em potencial. So dois fenmenos que esto intrinsecamente ligados. S que o policial morre, na grande maioria das vezes, quando est fora do servio. Sem farda, sem rdio, sem apoio operacional", complementa Samira. Os nmeros do anurio de segurana evidenciam isso: a cada 4,5 pessoas mortas por policiais, um policial  morto - foram 490 agentes assassinados em 2013. Apenas 25% deles estavam em servio e esse tipo de ocorrncia dobrou nos ltimos dois anos. A Polcia Militar de So Paulo defende que, para reduzir esses nmeros, a legislao passe a considerar crime hediondo aquele praticado contra os agentes. 
     Nesse cenrio violento, muitos inocentes tm morrido. Crianas como Eduardo de Jesus, mulheres como Elizabeth, homens como o Amarildo, ajudante de pedreiro da Rocinha, desaparecido numa viatura policial para nunca mais ser visto. E milhares de outros, todos os dias. Para Samira,  difcil combater os altos ndices de letalidade da polcia quando nem a prpria populao percebe que, com essa guerra, ningum sair vencendo. "As pessoas no entendem que, amanh, pode acontecer com elas." 

6 PESSOAS SO MORTAS por policiais todos os dias no Brasil
QUEM  MORTO  77% tm menos de 30 anos. Negros tm trs vezes mais chance de morrer que brancos.
QUEM MATA  70% dos autores so policiais militares, 30% civis. Em quase 20% dos casos, o policial estava de folga

QUESTO RACIAL  Idade e cor das vtimas mortas po policiais entre 2009 e 2011, em So Paulo
zero a 14 anos
Negros: 7
Brancos: 2

15 a 24 anos
Negros: 252
Brancos: 155

25 a 34 anos
Negros: 135
Brancos: 110

25 a 44 anos
Negros: 35
Brancos: 23

45 ou mais
Negros: 9
Brancos: 7

- A cada 3 dias 21 pessoas so mortas nesta guerra. 4 delas so da polcia.
- Nossa polcia mata 5 vezes mais do que a dos EUA.
- 43% dos brasileiros apoiam a pena de morte.
- Em 1945, apenas 8 pases tinham abolido a pena de morte. Hoje so 140.


4#7 SUPER APRESENTA MINHA VIDA SEM TESTOSTERONA
Uma Histria em Quadrinhos por Lu Cafassi (texto e arte)
Edio Karin Hueck e Flvio Pessoa

SADE
[mdica, Dra. Tnia, olhando exames]
 Seu namorado deve estar sofrendo, n?
 [moa,  sua frente, com expresso de espanto, sem falar, aparecendo um ponto de interrogao sobre sua cabea]
[mdica]  Seu exame de sangue, no geral, est bom, mas a sua testosterona est muito baixa. Ela que deveria dar garra, fora e vontade de... Bem... Transar.
[moa]  ... imagino que sim.

[Esta moa em outra situao]
 Oi, licena, desculpa. Hihi. Meu nome  Lu, minha testosterona  baixa, vocs viram, n? Resolvi contar minha histria, aqui na Super, para explicar sobre esse hormnio. Juro que  rpido.
	A testosterona  produzida nas glndulas adrenais e nos testculos, ou ovrios.
	As mulheres a produzem em uma quantidade at 30 vezes menor do que os homens. 
     Metabolizada a partir do colesterol, ela influencia nossa personalidade e regula nossa fora e vitalidade.
     At o segundo ms de gestao, todos os embries parecem ser femininos.
     Depois disso, o feto masculino comea a produzir uma grande quantidade de testosterona, que os diferencia.
     Na adolescncia dos garotos, o hormnio desencadeia alteraes na voz, nos ossos e nos testculos.
     Surgem pelos por todo o corpo e o desejo sexual comea a falar mais alto.
     E para a mulher, qual a importncia dessa molcula acima?
     Mesmo em quantidades inferiores, a testosterona provoca as mesmas reaes no corpo da mulher, ainda que mais fracas.
     Mas no se engane. Isso j faz toda a diferena.
     Um dos primeiros cientistas a reconhecer a existncia de hormnios no sangue foi Charles Edouard Brown Sequard. Em 1889, ele era professor na universidade de Harvard e andava fazendo alguns experimentos que seu cachorro desaprovaria.
     O professor preparou um fluido a partir de uma substancia que extraiu dos testculos de ces e de porquinhos-da-ndia. E injetou em si mesmo!
     Sentiu-se to bem que afirmou para os colegas que havia descoberto uma maneira de prolongar a vida humana.
     Nos anos seguintes, foram feitos experimentos a partir dos testculos de diversos animais. Sempre em busca do tal elixir da vida. At que, em 1939, descobriram uma maneira de sintetizar o hormnio a partir do nosso colesterol.
     Da em diante, foi s festa. Todo mundo queria o elixir da vida. Principalmente no mundo dos esportes. Os atletas faziam dopping com testosterona para aumentar a fora e resistncia. Foi assim at 1999, quando os EUA interromperam a baguna. Eles... 

[outro moa aparece neste quadro, interrompendo a fala de Lu]
 ...proibiram o uso da testosterona para fins no-medicinais. Pronto, acabou.
[Lu]  Pera! Eu tinha que falar sobre...
[outra]  J falei. Acabei a explicao, j.
[Lu]  Essa  minha amiga Laura. Ela tem a testosterona alta. Se pudssemos ilustrar a influncia desse hormnio no nosso organismo... ...seria como se a Laura tivesse um galo-de-briga constantemente comandando seu comportamento. E eu tivesse... [imagem de um pintinho]
[Laura]  A gente devia botar esses bichos pra brigar.

 [LU] 
Testosterona (ativa): 0,09 NG/DL (quantidade saudvel: 0,17 a 1,59 NG/DL
Pontos Fortes: Habilidade manual e cuidado com detalhes.
Fraquezas: fadiga, baixa libido, fraqueza muscular e nos ossos, constante confuso mental.

[LAURA] 
Testosterona (ativa): 2,4 NG/DL (quantidade saudvel: 0,17 a 1,59 NG/DL)
Pontos Fortes: Energia, tnus muscular, autoestima e libido elevadas. Fora, resistncia e concentrao.
Fraquezas: impacincia. Danos no fgado e propenso a doenas cardiovasculares.

O QUE CAUSA DIFERENAS DE COMPORTAMENTO (exemplos)
[Laura]  Lu, voc pode fazer uma coisa chata pra mim?
[Lu]  Sim, mas  claro. Adoraria, posso fazer de graa?

[Lu]  Laura, voc pode fazer uma coisa chat...
[Laura]  NO

[prximo quadro, Lu com pintinho, e Lauro com galo, uma em frente a outra e a palavra FIGHT! [luta] escrita entre elas.]

[Lu]  Vai pintinho! Mas s se voc quiser, se no quiser, no precisa, eu dou um jeito aqui, desculpa.
[Laura]  Anda meu filho! Pega, mata e come!

[prximo quadro, galo pulando, esperneando, explodindo e o pintinho dormindo na sua frente]

DE VOLTA AO CONSULTRIO 
[Lu e Laura sentadas  frente da mdica]
[mdica]  O importante  o equilbrio. Laura, voc vai ter de reduzir esses nveis. Isso  feito por meio de plulas anticoncepcionais. Lu, para o seu caso, vou receitar um remdio manipulado em farmcia.
[Lu]  O remdio vai me deixar assim? [corpo masculino, ombros largos, barba]
[mdica]  No. S se essa fosse sua inteno, a o tratamento seria outro. Mas lembrem que suas atitudes no so definidas, exclusivamente, nem por fatores biolgicos, nem por fatores sociais. A identidade  uma criao individual.
[Lu, gritando]  Quero coar o saco e ver futebol.
[Laura com expresso delicada, queixo apoiado nas mos, fazendo biquinho com os lbios, olhar terno] 
[mdica]  Tambm no precisa cair no esteretipo, n...
FIM
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5# ORCULO maio 2015

O SENHOR DE TODAS AS RESPOSTAS

Boa noite, Ser insone, sapiente e pastoral:
POR QUE CONTAR CARNEIROS AJUDA A DORMIR? - Dyego Anderson, Areia Branca, SE
POR QUE  MONTONO, enfadonho, fastidioso. A contagem faz os mortais se desligarem dos problemas cotidianos. Por outro lado, tal mantra mantm o crebro ativo, liberando hormnios como o cortisol, que desperta. Ou seja, para alguns, contar carneirinhos pode ser cilada - mentalizar uma paisagem relaxante, receber uma massagem ou tomar um banho quente funciona melhor para adormecer. Sobre a origem da contagem de carneiros, o relato mais antigo est no livro Disciplina Clericalis, escrito no sculo 12 por Pedro Alfonso. Um dos contos da obra trata de um rei que exigia que um sdito lhe contasse histrias at dormir. O servo, porm, tambm queria descansar. Ento, inventou a histria de um homem que precisava atravessar 2 mil carneiros por um rio. Para continuar a trama, o sdito exigia que o rei fizesse a contagem da travessia. 

20 MINUTOS mais rpido para adormecer: essa  a vantagem mdia de quem pensa em cachoeiras, correntezas e outras imagens tranquilas em vez de contar carneiros.

Qual a diferena entre o lcool que eu bebo, o que move meu carro e o que eu uso para higienizar as mos? - Dyego Anderson. Areia Branca, SE 
UM DYEgO, dois Dyegos... Zzzzzz. Pera, voc perguntando de novo? H duas grandes diferenas: o percentual de concentrao do lcool e as substncias presentes nas verses em gel e combustvel, que as inviabilizam para consumo humano. Enquanto uma cerveja tem em torno de 5% de lcool, o lcool gel, que mata o vrus H1N1, tem 70%. J o combustvel tem 94%. Alm disso, os ltimos dois tm componentes txicos na composio, como zinco, cobre e metanol. Tomou?

P PUM
Qual  a cidade brasileira mais distante de um aeroporto? E quanto tempo leva para um habitante de l chegar ao aeroporto mais prximo? - Cssio Fischer de Oliveira, Canoas, RS 
Apu, no Amazonas. A 622 km de Manaus, um apuiense levaria quase 11 horas de carro, sem parar, at o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. 

NMERO INCRVEL
300 mil telefones pblicos ainda esto ativos no Brasil e devem transmitir sinal de Wi-Fi, segundo a Anatel 

OUTRO DADO RELEVANTE SEM NENHUMA LIGAO 
300 mil DLARES era o custo de armazenagem de 1 GB em 1981. 

Al, al, atenda este chamado sem dar uma de ocupado: qual a origem e o significado da expresso "caiu a ficha"? - Emanuel Oliveira. Quixad, CE 
AL, AL, ocioso terrqueo. Isso faz pouco sentido para quem nasceu de 1990 para c. At essa poca, todo telefone pblico - o popular orelho - funcionava com fichas, parecidas com moedas, em vez de cartes. Quando a ligao era completada, ouvia-se o barulho da ficha caindo dentro do aparelho. Desde ento - e mesmo aps a extino das fichas, em 1992 -, a expresso  usada quando uma pessoa entende algo com atraso. Tchau, tchau. 

QUER QUE EU DESENHE? 
Tenho ideia de como trabalham as cordas vocais quando canto, mas como  que funciona o assovio?  Claudio Borghi, Curitiba, PR
1- Assoviar forma uma onda sonora" na boca. Para atingir notas agudas, a lngua fica mais perto dos lbios. Isso diminui o espao para o ar e aumenta a frequncia da onda. Assoprar com fora tambm ajuda. 
2- Para soar mais grave, a lngua se afasta dos lbios. O espao interno aumenta e a frequncia da onda diminui, assim como a fora do sopro. 

Orculo que legisla sobre tudo e todos:  possvel algum ser presidente fora do pas de origem? - Murilo de Melo Rosa, Monte Carmelo, MG 
Sim. A regra geral  que o presidente deva mesmo ser nato.  assim nos EUA, onde o candidato precisa, ainda, comprovar residncia ininterrupta no pas por 14 anos. No Brasil, o artigo 12, pargrafo 3, da Constituio Federal esclarece que cidados naturalizados ou estrangeiros no podem concorrer  presidncia. Mas h excees... 
Filhos da (outra) ptria
ABDELAZIZ BOUTEFLIKA - PRESIDE A Arglia. NASCIDO NO Marrocos.
TOOMAS HENDRIK ILVES - PRESIDE A Estnia. NASCIDO NA Sucia.
MAMNOON HUSSAIN - PRESIDE O Paquisto. NASCIDO NA ndia

Quando o prncipe Charles assumir o trono britnico no lugar da rainha Elizabeth 2, O HINO "GOD SAVE THE QUEEN" MUDA PARA "GOD SAVE THE KING"? - Sofia Moretti Ceni. Pato Branco, PR 
VEJO QUE S DA LINHAGEM CENI, de um nobre arqueiro que j fez milhes de sditos da rainha chorar em gramados do Japo em 2005. Amenidades  parte, a resposta  sim. O hino do Reino Unido  o mesmo desde 1745. Mas as palavras queen (rainha) e king (rei) podem ser trocadas dependendo de quem governa. Os dois ltimos versos tambm variam: "To sing with heart and voice/God save the Queen" vira "With heart and voice to sing/God save the King". Prepare-se para esta mudana: h vrios homens na fila de sucesso de Elizabeth 2. O primeiro  o filho Charles, seguido pelo neto William. Em terceiro vem George, O Fotognico, herdeiro de William. 

Por que nas sedes governamentais das cidades est escrito "Prefeitura Municipal"? S "prefeitura" no seria suficiente? - Marina de Melo Brggemann, Lages, SC 
NO. Porque hoje em dia tambm h prefeituras de universidades, por exemplo. O termo vem do latim praefectura, e significa autoridade, direo, governo. Na Roma antiga, havia prefeituras de fazendas, (praefectura villae), de censura (praefectura morum) e at de cavalaria (praefectura equitum). J as prefeituras militares controlavam fortificaes que protegiam o municipium, local em que cidados exerciam direitos e cumpriam deveres. 

Salve, salve, patro da sabedoria suprema! Trago uma pergunta corporativa e mal-intencionada: qual  a profisso mais antiga do mundo? - Aureana Jensen, Curitiba, PR 
SEM SACANAGEM: de acordo com pesquisadores de Harvard, cozinhar foi a primeira atividade exclusivamente humana e ajudou sua espcie a aproveitar melhor a energia dos alimentos. O ofcio antecede at o Homo sapiens: comeou com o ancestral Homo erectas h 1,9 milho de anos - muito antes de o homem dominar a agricultura ou comercializar relaes sexuais. 

PROVRBIO DO MS
Para um cachorro louco, sete milhas no so um desvio. 
Este ditado russo refere-se a quem est cego por um sonho ou ambio e faz de tudo para conquist-los sem se importar com as dificuldades. Tambm  usado para cutucar workaholics (viciados em trabalho). 

Canto no chuveiro todo dia e dou um banho. S que na hora de me apresentar em pblico, d gua. Como fao para mandar bem no karaok?  Santiago Nobre, Hidrolndia, CE
1- CAPRICHE NA PLAYLIST 
INICIANTE - Escolha uma cano que voc conhece bem. Avalie se  confortvel para sua voz. 
EXPERIENTE - V de hits como Evidncias e Whisky a Go Go. Se no aguentar cantar agudo, diga "s vocs" e aponte o microfone para a galera. 
SHOWMAN - Arrisque tudo cantando com um parceiro. Vale at ousar algumas releituras vocais. 
2- DOMINE O PALCO 
INICIANTE - No sabe o que fazer com as mos? Use uma delas para segurar o microfone e outra para o cabo. 
EXPERIENTE - Caminhe pelo palco e faa movimentos expressivos. 
SHOWMAN - Incorpore um personagem. Por exemplo, se cantar Livin' On a Prayer, do Bon Jovi, espalhe o cabelo, descole uma jaqueta de couro e grite. 
3- CONQUISTE FS 
INICIANTE - Desgrude os olhos da letra. Escolha trs pessoas e cante de olho nelas. 
EXPERIENTE - Desa do palco, caminhe entre as mesas e, no refro, pare perto de um grupo e chame a galera para cantar. 
SHOWMAN - Convide gente para danar no palco e chame a plateia para seguir uma coreografia simples. Thriller, do Michael Jackson,  uma boa para isso. 

CONEXES
FHC a LHC
Por Ana Prado

FHC - ou Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil entre 1995 e 2003. Antes disso, foi ministro da Fazenda e ganhou popularidade ao chefiar o Plano Real, que ajudou a estabilizar a economia nacional. Atualmente,  um dos nomes mais fortes no debate em favor da legalizao da.. 
MACONHA - Nome popular da Cannabis sativa, originria da sia. Quando fumadas ou ingeridas, suas flores e folhas secas liberam no organismo, entre outras substncias, o THC (tetrahidrocanabinol). Ele causa alteraes sensoriais e temporais, sedao e sonolncia. Outro efeito da droga  a... 
LARICA - Fome que bate no usurio de maconha mesmo com o estmago cheio. Segundo estudo recente publicado na revista Nature, isso ocorre porqueo THC desativa um mecanismo cerebral que controla a sensao de saciedade. Um jeito fcil e barato de acabar com a larica  comendo... 
PO - Alimento  base de farinha - de trigo ou de outro cereal. Alm de saciar a fome de humanos e, eventualmente, de animais, pode causar acidentes: em 2009, um pedao de po cado do bico de uma ave teria causado superaquecimento e paralisao do... 
LHC - Acelerador de partculas com 27 km de extenso, na fronteira de Frana e Sua. Nele foi descoberto o bson de Higgs, pea que faltava para completar o Modelo Padro da fsica de partculas. Sua construo foi aprovada em 1994, ano em que o Brasil elegeu FHC. 

, SER QUE TUDO MAPEIA, ORIENTE OS CAMINHOS DESTE DEVOTO: POR QUE APARECIDA, SP,  CHAMADA DE APARECIDA DO NORTE? - Fernando Belezine, Pontal, SP 
AVE! O nome da cidade que procuras homenageia a imagem de Nossa Senhora da Conceio Aparecida - santa padroeira do Brasil desde 1930 -, encontrada no fundo do rio Paraba do Sul em 1717. O complemento "do Norte" surgiu por causa da Estrada de Ferro do Norte, que atendia o municpio. O apelido pegou e, por isso, valem os dois nomes. Logo, se voc peregrinar rumo a Aparecida acabar em Aparecida do Norte. E vice-versa. Agora, se preferes uma jornada mais alternativa e exclusiva, podes visitar localidades homnimas e menos cotadas como Aparecida d'Oeste, no interior paulista, e Aparecida do Sul - distrito do municpio mineiro de Cuap curiosamente localizado ao norte de Aparecida "do Norte". Aparecida do Leste ainda no est no mapa. 

Perdoe minha ignorncia: para onde vai o dinheiro recolhido com multas de trnsito e com punies decretadas pelo Judicirio? - Michel Pires, Amrico Brasiliense, SP 
DEPENDE do tipo de punio, incauto cidado ameriliense. Multas de trnsito, por exemplo, tm o valor revertido para melhorias no trfego, educao de trnsito e policiamento. J no caso do Judicirio, o destino da grana varia se a punio for na rea civil, trabalhista, criminal ou do consumidor. O dinheiro pode ser encaminhado a vrios fundos municipais, estaduais ou federais. Os valores so investidos em entidades com fins sociais, de segurana pblica, de educao e de sade, em presdios e em polticas de amparo  populao. 

Por que super-heris usam capas? - Maria Regis, Mossor, RN 
PORQUE FICA MANEIRO. O acessrio d um efeito dramtico e imponente aos personagens. Imagine aquela cena clssica do heri vigiando a cidade no alto de um prdio com o vento tremulando sua roupa. Alm de conferir uma aura de nobreza e de justia, a pea tambm est associada, no imaginrio popular, aos reis: poderosos, respeitados e autorizados a julgar o que  certo e errado.

Que o correto  bolacha em vez de biscoito j est mais que provado. Mas de onde vem o termo "bolacha" e qual foi a primeira delas? - Jefferson Rodrigues da Cunha, Caieiras, SP 
SURGIU NA HOLANDA, em 1703, para designar verses doces de biscoito. O bis cuit, termo francs para "duplamente cozido", foi adaptado para o holands koekje ("bolo pequeno"). Em portugus de Portugal, a palavra bolo denominava uma alimento achatado carregado por marinheiros. Com o passar do tempo, bolo virou bolacha, j a Maria, mais famosa das bolachas, foi criada em 1874 para comemorar as bodas da duquesa russa Maria Alexandrovna com o Duque de Edimburgo. 

Sarado Orculo, ando resfriado e queria saber se alimentos gelados pioram minha situao. Posso tomar um sorvetinho mesmo com a garganta inflamada? - Leandro Moura da Silva, Rio de Janeiro, RJ 
DEPENDE. Inflamaes na garganta, em geral, so causadas por vrus ou bactrias. Nesse caso, recomenda-se tomar remdio at o incmodo passar. Em outros casos, variaes bruscas de temperatura tambm podem irritar a garganta de pessoas sensveis. Se voc faz parte desse grupo, evite tomar gelado. Se no, manda bala no sorvete - o gelo, inclusive,  anti-inflamatrio.

No Brasil,  possvel registrar um recm-nascido com um sobrenome que no seja o da famlia? - Marcos Paulo Azarias Gomes, Londrina, PR 
IMPOSSVEL. Pode conferir em qualquer cartrio perto de voc: de acordo com a Lei Federal 6015/75, que regulamenta registros de nomes e bens, crianas nascidas no Brasil devem ser registradas com sobrenomes pertencentes a seus pais ou a seus avs. 

LISTA
Quantas palavras existem nos dicionrios de lngua portuguesa? - Brunno Incio, Natal, RN
442 MIL  Grande Dicionrio Houaiss da Lngua Portuguesa
435 MIL  Dicionrio Aurlio da Lngua Portuguesa
410 MIL  Grande Dicionrio da Lngua Portuguesa, Porto Editora, Portugal
381 MIL  Vocabulrio Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
200 MIL  Moderno Dicionrio da Lngua Portuguesa Michaelis

CINCIA MALUCA
Por Carol Castro
TV FAZ CRIANAS MENTIREM - Mais de 10 mil mes britnicas anotaram o tempo que seus filhos (todos com 5 anos) passavam vendo TV. Reportaram ainda como estava a sade psicolgica e a habilidade social das crianas - dois anos depois refizeram a mesma anlise. Quem via trs horas dirias de TV mentia, trapaceava e brigava mais. 
BEBER CERVEJA D DENGUE - Pesquisadores colocaram 43 voluntrios em tendas na frica - 25 tomaram cerveja e os outros 18 beberam gua. Por meio de tubos, o odor deles era direcionado para caixas com mosquitos/Aedes aegypti da malria, que podiam escolher que cheiro preferiam. No se sabe o porqu, mas cerveja agrada: aumenta em 20% o risco de ser picado. 
ADOECER  MOTIVO DE DIVRCIO - Doena grave entre as esposas representa um risco 6% maior de separao. J a sade deles no afeta o casamento. A descoberta vem de um estudo feito com 2,7 mil casais durante 20 anos. Pesquisadores suspeitam que homens no sabem cuidar das esposas enfermas - e a insatisfao delas acaba em divrcio. 

ESTE MS NESTE PLANETA
Dia 2
- EUA
Pescoos vermelhos - Cansados do apelido de caipiras, americanos de Augusta, Georgia, criaram os Redneck Games. O evento tem modalidades bizarras: mergulho no lixo, arremesso de cigarro e de tampa de privada etc.
160 MIL pessoas fazem o maior carnaval do norte da Europa, em Aalborg, Dinamarca. Os desfiles tm fantasias brasileiras e grupos de samba. Dia 15.

DIA 5
- 18h30
Campeonato de saltos "bomba" - Em Sheffield, Inglaterra, competidores fantasiados pulam na  piscina para ver quem levanta mais gua e com mais estilo. O evento arrecada fundos para o combate ao cncer.

DIA 22
- Hong Kong
Po para mais de metro  Uma torre de pes com 15 m  escalada por participantes do festival Cheung Chau Bun, - o objetivo  pegar o mximo de pes. A festa homenageia Pak Tai, divindade que salvou a ilha de Cheung Chau de uma praga no sculo 18.

PERGUNTE AO ORCULO
Escreva para superleitor@abril.com.br com o assunto Orculo e mencione sua cidade e Estado.
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6# MUNDO SUPER
NOSSA REDE SOCIAL

MEU HOSPITAL  NA PRAIA
Aps a reportagem A Polmica do Sol (abr/15), recebemos uma enxurrada de cartas de leitores que tiveram experincias fantsticas com a vitamina D. No temos espao para todas, mas fica aqui nosso desejo mais sincero: sade!

VIVO NA FINLNDIA. O Sistema de sade  bom, mas eles no souberam me tratar. Tenho vrias doenas autoimunes. Perdi a viso, a audio, a fala e a memria. Tinha dez convulses por dia. Seis meses atrs, fui ao Brasil ao ouvir casos de sucesso com a vitamina D. Hoje, consigo correr e at fiz um show cantando. Clarice Cataldi 

FAO TRATAMENTO com vitamina D para artrite reumatoide e minha vida mudou. Foi timo ver o artigo, muitos podero se beneficiar! Marilda Gnatta Dalcuche 

TENHO ESCLEROSE MLTIPLA e apostei somente na vitamina D. Vivo sem sintomas, sem hospitais, sem remdios. Vocs me fizeram voltar  poca em que tive que escolher, e chorei como h muito no chorava! Um choro de alegria por ter optado pelo melhor tratamento. Viviane Valadares 

TROQUEI O CERTO, as medicaes convencionais que nunca me ajudaram 100%, pelo ainda no comprovado colecalciferol, um tipo de vitamina D. Me sinto sem doena! Cibele Itaboray Frade 

DESCONHECIA ESSE PODER to natural. Digam  Fernanda, da matria A dor que no passa nunca (mar/15), que opte por ele tambm. Quem sabe, no ?! Lucas Noia 

SUPER: A Fernanda est se tratando com vitamina D e anda bem animada com os resultados. 


EMBATE
UMA POLMICA, SUAS OPINIES.
A GUA NO VAI ACABAR, DO BLOG CRASH QUE AGORA TEM VERSO EM VDEO.
 importante economizar porque os governos so irresponsveis e burros. Vimos que ficar na mo deles no resolve a situao. Mas  importante desmascarar mentiras como essa, de que a gua est acabando. - Lus Fernando Farias.

Achei um desservio. O pensamento de que a gua recircula  o que faz esgoto sem tratamento ser lanado nos emissrios. gua  difcil de tratar e, com a superpopulao, tende a no ser suficiente para o consumo. - Polita Gonalves.

3 TEXTOS UTPICOS 
1- Sinto que tenham de apanhar, mas  isso que os heris fazem... Apanham por ns para nos dar a vitria. - Erik Morosov, sobre a carta Vamos apanhar (abr/15). 
2- Espero que algum poltico leia a matria e abra os olhos. Ideias e exemplos no faltam, falta conscientizao da populao e dos governantes. - Enzo Hideaki Watanabe, sobre a reportagem Cad minha gua? (abr/15). 
3- Seria uma boa ideia se as pessoas comeassem a fazer uma caa ao tesouro, em que o tesouro  a gua escondida embaixo de seus prprios ps. - Sheila Cristina, sobre a reportagem Rios invisveis (mar/15)

COMO ASSIM.,.
...O HOMEM  O NICO MAMFERO ADULTO QUE TOMA LEITE?
Cinco audaciosos leitores questionam o sbio-supremo Orculo sobre sua resposta  pergunta acima (abr/15), alegando que seus gatos e ces esto felizes da vida com as tigelas cheias. Ento, vale reforar: nenhum outro mamfero adulto faz consumo de leite na natureza. O homem  o nico que mantm o alimento em sua dieta e, se gatos e ces bebem leite, a culpa  do homem tambm.

LEITOR DO MS
QUEM  VOC? Sou Gisele Catarino, brasileira, mas moro na Noruega h quatro anos.
O QUE  QUE MANDA? No dia 17 de maro, tivemos uma aurora boreal exuberante. Fiz vrias fotos e posso enviar algumas.
NOSSO DESIGNER ESTAVA A NAS FRIAS E VIU A AURORA NO MESMO DIA. Que
coincidncia! E que sortudo! Moro aqui h quatro anos e nunca tinha visto uma to forte e magnfica. Foi maravilhoso.

AL, ZUERA!
"Tanta pesquisa pra fazer e esse povo pesquisando besteira. Feliz  quem dorme do lado do ventilador." - Julie Ribeiro, sobre o post "Quem dorme do lado esquerdo da cama  mais feliz". 

 TETRAAAA! O infogrfico Por trs do vu (jul/14) ganhou quatro importantes prmios de design: Society for News Design, Malofiej, Society of Publication Designers e Prmio Abril de melhor infogrfico. Voc pode conferir a verso online aqui: super.abril.cont.br/veus-muculmanos 

CHECKLIST
Este ms, no mundo SUPER.
LIVRO
O LIVRO PROIBIDO DO SEXO
Amor, prazer e sacanagem.
R$ 29,90

DOSSI
VIKINGS
Os guerreiros metrossexuais que descobriram a Amrica.
R$ 14

VDEO
COMO OS GATOS VEM O MUNDO?
O Fato Interessante que explica o olhar felino foi visto mais de 4,2 milhes de vezes. Ainda no viu? on.fb.me/ilLcpzD

QUIZ
QUEM MATOU QUEM em GAME OF THRONES?
George R. R. Martin no tem pena de matar ningum. Veja se voc lembra como cada personagem morreu: abr.ai/1FFCCvN

FOI MAL
 A foto que ilustra a cidade de A Corunha mostra o farol Cabo Viln, no a Torre de Hrcules (Universos opostos, abr/15).
 O nome correto para uma epidemia mundial  pandemia. (The end of the world as we know it, abr/15). 
 A produo de soja consome mais de 100 trilhes de litros de gua por ano, no quatrilhes (Cad minha gua?, abr/15).

FALE COM A GENTES 
Redao: superleitor@abril.com.br \ Av. das Naes Unidas, 7221, 14 andar, So Paulo-SP, CEP 05425-902. Assinaturas: assineabril.com 0800 775 2828 ou 11 3347-2121. Servio de Atendimento ao Cliente: abrilsac.com \ 0800 775 2112 ou 11 5087-2112. Publicidade: publiabril.com.br \ 11 3037-2528 / 3037-4740 / 3037-3485.
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7# REALIDADE ALTERNATIVA maio 2015
11.982 CARACTERES DE LITERATURA


A DAMA P-DE-CABRA NO PAS DO PAU DE ARARA
Um conto de Reinaldo Moraes. Ilustrao: Eduardo Belaa
[Esta histria se baseia livremente numa lenda portuguesa, de origem medieval, que j havia sido reinterpretada pelo escritor portugus Alexandre Herculano (1810-1877), no livro Lendas e Narrativas.]

1968
     Quem vem l ao volante do velho jipe Wyllis na estradinha de terra da fazenda Santa Mrcia, no sop da Serra do Jupati, interior de So Paulo? 
      o primeiro personagem desta histria, quem mais haveria de ser? 
     De cabelo cortado rente nas laterais e um topete  prova de ventanias armado com gumex no topo da cabea, blazer de l escocesa, foulard de seda no pescoo e botas reluzentes de cano longo, Jorge D'vila  um fazendeiro reaa e carola, f de primeira hora dos milicos que tomaram o poder no Pas, e solteiro convicto em seus quase castos 30 anos. A fazenda, e outros negcios da famlia, como um banco, um frigorfico e uma madeireira, ele herdou, junto com um irmo mais novo, dos pais que morreram faz uns anos num acidente de teco-teco nas lonjuras do Mato Grosso, onde abriam uma nova fazenda. 
     Flvio, esse irmo de Jorge,  seu antpoda: cabeludo, barbudo, f de Che Guevara e John Lennon, mulherengo em tempo integral e adepto de uma revoluo que instaure um comunismo libertrio e ldico no Brasil e no planeta. Arquiteto recm-formado, Flvio vive em Paris, para grande alvio do irmo, fazendo um doutorado em urbanismo na Sorbonne. 
     E  nele que Jorge est pensando ao ouvir, por cima do ronco do motor, uma voz feminina de afinao absoluta, vinda dos altos da serra. Desguiando do caminho, o rico fazendeiro sobe por  uma trilha acidentada a encosta de um morro que vai dar num penedo com vista para um vale tomado por pasto, gado e canavial da fazenda vizinha  sua. No topo do penedo, Jorge avista uma jovem de beleza sobrenatural, capaz de desequilibrar a ordem do Universo, dentro e fora dos seres e das coisas. Loira e de olhos absurdamente azuis, a beldade traja um vestido branco longo, rodado e rendado, com um decote sobre o qual pendem duas laadas de um delicado colar de prolas. 
      Voc  real?  o fazendeiro lhe pergunta, sentindo sua alma vibrar para alm do controle da razo. 
     A resposta vem serena e sorridente, num doce sotaque luso: 
      Sim, meu jovem senhor, sou real. At os nossos sonhos so reais, pois que  real o sonhador. 
      Voc mais parece uma... uma fada! 
      Fadas tambm so reais no mundo delas  responde a inesperada personagem. 
      Sua graa ...? 
      Lucivera. 
     Sentando-se em outra pedra, ao lado de Lucivera, Jorge ouve, absorto e embevecido, a histria que ela lhe conta, com aquela sua voz de cristal que imprime uma levada melodiosa a tudo que diz e aquele olhar que parece ter roubado ao cu todo o seu azul. Ocorre que a bela jovem acabou de herdar as terras da fazenda vizinha, depois da morte de seu dono, um velho vivo e sem descendentes com quem tinha remoto parentesco. 
     Cada vez mais encantado com to bela e tradicional figura feminina, que em nada lembra as detestveis jovens modernas metidas em abominveis jeans e camisetas, e por demais despudoradas, vulgares, arrogantes, contestatrias e masculinizadas para o seu gosto orgulhosamente retrgrado, Jorge convida Lucivera para jantar na sede de sua fazenda, o que a beldade prontamente aceita com um sorriso nada menos que cativante. 
     Ao pisarem na soleira do velho casaro colonial, onde uma Nossa Senhora montava guarda num nicho encravado na parede, Lucivera tem uma crispao de bicho ameaado, d as costas  Virgem e diz: 
      Jorge, meu belo, padeo de iconofobia aguda, uma doena psquica rarssima e sem cura. Portanto, tira essa senhora de porcelana das minhas vistas, te peo, rogo e imploro. E manda teus criados sumirem com tudo que  imagem, estatueta, cruz e demais smbolos religiosos que porventura estejam  vista dentro da tua casa. 
      Icono...fobia?  balbucia Jorge. 
      Sim, aguda  reitera a cantora. 
     No jantar,  luz de velas, o vinho, a beleza sobrenatural de Lucivera e o bom bordeaux francs levam Jorge a se ajoelhar diante da dama do penedo: 
      Quero fazer de voc a senhora D'vila, minha mulher, minha rainha!  diz ele, tomado da mais imperiosa paixo que jamais sentiu na vida por mulher nenhuma. 
      Aceito, meu belo Jorge, mas com uma condio: nunca mais faas o sinal da cruz, nem jamais tornes a pr os ps numa igreja. E nada de ostentar ou guardar qualquer efgie ou smbolo religioso. Destarte, no s serei para sempre tua como tambm te darei toda a sorte material que um homem pode ter neste mundo. 
     E veio o casamento e veio a noite de npcias, ali mesmo na sede da fazenda. A noiva desvela todo o seu corpo magnfico feito num molde celestial, exceto pelas delicadas botinas de camura cor de rosa. Ao descal-las, vem a terrvel surpresa: os ps da beldade tm a forma de casco fendido como os de uma cabra. Eram de fato ps de cabra! 
     Apesar disso, o que veio a seguir naquela nobre cama de baldaquim do imprio foi a mais esfuziante celebrao do amor carnal, como nunca Jorge experimentara na vida. Sua entrega aos folguedos erticos com Lucivera foi de tal ordem que ele chegou a beijar com salivosa volpia cada um dos cascos da esposa. O amor  estranho, j disse algum. 

1972 
     Quatro anos depois daquela inesquecvel noite de npcias, na qual, alis, foram concebidos os gmeos do casal D'vila, a vida financeira do fazendeiro e empresrio tornara-se um vendaval de lucros, com os negcios se multiplicando feito os pes e os peixes da Bblia  da qual, alis, ele nunca mais se aproximara , quando se anuncia o retorno ao Brasil do irmo de Jorge, o "comunistinha" Flvio. 
     J reinstalado em seu apartamento paulistano, que se tornara o "aparelho" de um grupo revolucionrio na sua ausncia, Flvio liga para o irmo, que o convida e provoca: 
      Venha jantar amanh aqui na fazenda. Se  que ainda sabe chegar  casa que te viu nascer e onde voc foi criado em bero de ouro antes de virar a ovelha vermelha da famlia. 
     No dia seguinte, l est Flvio D'vila na sede da fazenda Santa Mrcia, ao p da Serra do Jupati, para um jantar que mudaria sua vida da forma mais radical e inesperada possvel. Basta dizer que no dia seguinte bem cedo, ao volante do fusca no retorno a So Paulo, o arquiteto esquerdista estava mortalmente apaixonado por sua cunhada Lucivera, com quem passara uma noite de sexo selvagem  sexo caprino, ele diria, depois de ter visto os ps de sua incestuosa amante , enquanto seu irmo jazia em sono profundo no leito conjugal, sem se dar conta da ausncia da esposa infiel, que trotava fogosa na cama do irmo com seus indecorosos cascos. 
     Dali em diante, oportunidades e, sobretudo, desejo no faltaram a Flvio e Lucivera para se esbaldarem no mais abusado, lambuzado e tresloucado sexo, sem que Jorge desconfiasse das constantes viagens da mulher a So Paulo, onde o casal D'vila mantinha uma luxuoso apartamento. 
     Nem  preciso dizer que Lucivera, desde o primeiro beijo, fizera a Flvio as mesmas exigncias antirreligiosas que impusera a Jorge: nada de fazer o sinal da cruz, nem de entrar em igrejas e ter contato com padres e madres, algo que para um materialista convicto como ele no seria propriamente uma dificuldade, ao contrrio de seu irmo Jorge, que teve de contorcer e retorcer a alma para afastar de si as coisas da religio. Flvio at gargalhou ao ouvir a estapafrdia exigncia da cunhada e amante, comentando: 
      Prometo tambm no beber gua benta, no pedir a bno a nenhum padre, nem trepar com nenhuma madre, por mais que ela insista! 
     Eis que Jorge recebe na fazenda uma carta annima relatando a dupla traio de que era vtima, por parte da mulher e do prprio irmo. Para Jorge, aquilo s podia ser castigo do Deus que ele havia renegado. Sua primeira reao foi passar a mo no telefone de ebonite preto e discar para o nmero do Major Cintra, em So Paulo. Esse major do exrcito, figura de proa dos rgos de represso poltica, era um gorila metido a gal que tinha ido lhe pedir dinheiro para equipar uma unidade antiterrorista e acabara se tornando seu grande amigo, a ponto de frequentar a fazenda e de convidar Jorge para assistir a sesses de tortura no Doi-Codi. 
      Major  comeou Jorge ao telefone ,  com imenso pesar que cumpro o dever de lhe informar que meu irmo, Flvio D'vila, est envolvido com um perigosssimo grupo armado que assalta bancos e planeja derrubar o nosso glorioso regime. Anote a o endereo dele em So Paulo. 
     Ato contnuo, Jorge comunica  mulher que eles seguiro naquele exato momento para a capital, junto com os gmeos: 
      Vamos assistir a um espetculo muito edificante na rua Tutoia  diz ele, sem maiores esclarecimentos. 
     Na estrada, a Mercedes capota e rola uma pequena ribanceira. Do carro de rodas para o alto emergem Lucivera e as crianas, sem nenhum arranho. No carro fica Jorge, de pescoo quebrado. 
     Em So Paulo, na sinistra delegacia da rua Tutoia, sede do Doi-Codi, Flvio, j modo pelas primeiras agresses que sofreu ao ser preso, pende do pau de arara, onde recebe choques pelo corpo, sob comando do Major Cintra. 
     Pouco resistente ao brutal tratamento que recebe, Flvio no demora a abrir o jogo sobre as atividades da VIP  Vanguarda Insurgente Proletria  a organizao de combate armado  ditadura na qual milita. Mas nenhuma confisso  suficiente para mitigar a sanha torcionria do Major Cintra, que, para quem no sabe, tornou-se o novo amante da insacivel Lucivera. 
     As horas passam e, j a ponto de enlouquecer de dor, Flvio nota que h agora uma pequena plateia assistindo em grande excitao ao espetculo de seus tormentos: Lucivera e seu casal de gmeos, sentadinhos em cadeiras a comer pipoca, como se estivessem no circo ou no cinema! 
     Eis que uma ideia lhe vem  cabea atormentada: 
      Me tire daqui e solte minhas mos  diz ele ao seu carrasco , que eu te farei um mapa. Um mapa de um tesouro enterrado na fazenda. 
     O major olha para Lucivera, que d de ombros, demonstrando desconhecer o assunto. 
      Que tesouro  esse? 
      Ouro, diamante, libras esterlinas. Coisa do meu finado pai. Tudo que eu quero em troca  um mdico e que parem de me torturar. 
      Se isso for mentira...  diz ele ameaador para o supliciado. 
     Flvio, ou o que resta dele,  retirado do pau de arara, nu e banhado em sangue. Acomodado numa cadeira, frente  mesa do escrivo, o Major Cintra libera seus pulsos feridos das algemas e o prov de papel e esferogrfica, que tira de uma gaveta: 
      Vamos! Desenha a esse tal de mapa do tesouro. E toma cuidado para no borrar tudo com esse teu sangue ruim de comunista.  
     Mas, ao se ver com as mos livres, Flvio desenha uma cruz no papel, e a exibe com a mo esquerda para Lucivera, enquanto, com a direita, faz um ostensivo sinal da cruz, recitando em latim: 
      In nmine ptris et filii et spiritus sancti, amm! 
     Lucivera solta um berro hediondo que provoca trincaduras nas paredes sem janelas da cmara de torturas. Seu corpo todo se retorce, fazendo arrebentar as costuras de suas roupas e botinas, que tombam no cho, desvelando a nudez peluda de um corpo agora disforme e animalesco, apoiado em seus famosos ps de cabra. Da testa lhe brota um par de chifres e da bunda um longo e escamoso rabo. Seus olhos, agora vermelhos, exibem pupilas horizontais, e as unhas das mos crescem de repente, retorcidas nas pontas, como as de uma harpia. 
      Maldito sejas!  ela impreca.  Quebrastes o juramento! Maldito sejas para todo o sempre! 
      Volte para o inferno de onde viestes, diaba!  retruca Flvio, com as ltimas energias que lhe restam, antes de tombar morto no cho. 
     Ato contnuo, Lucivera se pe a levitar junto com o casal de gmeos, eles tambm transformados em diabinhos caprinos de rabo e chifres, at virarem todos uma densa fumaa sulfurosa a se evolar por um duto de ventilao no teto. O Major Cintra e o juiz de paz, nicas testemunhas daquela abominao, comeam a sufocar no ar saturado de infernais miasmas e se lanam para a porta fechada que, em grande agonia respiratria, tentam em vo abrir. De olhos saltados para fora das rbitas e com as bocas vertendo espuma verde de blis, caem os dois por terra, retorcendo-se em agonia at a imobilidade imposta pela morte. 
     E assim termina a histria da Dama P-de-Cabra no reino deste mundo sem Deus. 
     
Reinaldo Moraes estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (Brasiliense). Em 1985 publicou Abacaxi (ed. L&PM). Depois, lanou rbita dos Caracis (Cia das Letras), Pornopopia (Objetiva) e muitos outros.  tambm tradutor e roteirista de cinema e TV.
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8# LTIMA PGINA maio 2015
DESCULPA QUALQUER COISA E TCHAU

METRS DO MUNDO
Infogrfico Tiago Jokura e Inara Nego

XANGAI
Data da fundao: 1995
Permetro  extenso do sistema: 548 km
Estaes a cada 10 km: de 6 a 10

PEQUIM
Data da fundao: 1969
Permetro  extenso do sistema: 527 km
Estaes a cada 10 km: de 0 a 5

LONDRES
Data da fundao: 1863
Permetro  extenso do sistema: 402 km
Estaes a cada 10 km: de 6 a 10

NOVA YORK
Data da fundao: 1904
Permetro  extenso do sistema: 396 km
Estaes a cada 10 km: de 11 a 15

MOSCOU
Data da fundao: 1935
Permetro  extenso do sistema: 327,5 km
Estaes a cada 10 km: de 0 a 5

TQUIO
Data da fundao: 1927
Permetro  extenso do sistema: 304,5 km
Estaes a cada 10 km: de 6 a 10

MADRID
Data da fundao: 1919
Permetro  extenso do sistema: 293 km
Estaes a cada 10 km: de 6 a 10

CIDADE DO MXICO
Data da fundao: 1969
Permetro  extenso do sistema: 226,5 km
Estaes a cada 10 km: de 6 a 10

PARIS
Data da fundao: 1900
Permetro  extenso do sistema: 219,9 km
Estaes a cada 10 km: de 11 a 15

SO PAULO
Data da fundao: 1974
Permetro  extenso do sistema: 78,3 km
Estaes a cada 10 km: de 6 a 10

BUENOS AIRES
Data da fundao: 1913
Permetro  extenso do sistema: 51,4 km
Estaes a cada 10 km: de 11 a 15

RIO DE JANEIRO
Data da fundao: 1979
Permetro  extenso do sistema: 42 km
Estaes a cada 10 km: de 6 a 10

